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As grandes cidades do país vêm se direcionando à modernização e deixando para trás a característica industrial. Estamos na era do fluxo informacional, das telecomunicações a serviço das grandes empresas. Aliás, serviços são o que essas empresas dizem prestar. Um exemplo é o Grupo Atento, líder em diversos países na área do chamado contact center, e que no Brasil tem uma presença marcante por estar instalada em diversas capitais atuando no setor de telemarketing para outras instituições.
A maioria dos teleoperadores contratados por empresas como a Atento são mulheres de baixa renda e qualificação, tendo em vista a docilidade e subserviência. Isso porque a área de serviços herdou a pressão por produtividade dos tempos industriais: o ritmo acelerado visando o maior lucro e menor custo em condições precárias e estressantes. E a degradação das condições de trabalho não param por aí: nessas empresas também se promove a competição entre operadores e entre grupos de operadores para obtenção de um ganho pequeno ao atingir uma pré-determinada meta. Essas medidas fazem do trabalhador de telemarketing um agente muito mais individualizado, despolitizado e dócil, de forma que nem o sindicato tem força política.
A falta de oportunidade de trabalho para jovens de baixa renda e com baixa qualificação profissional agrava esse cenário. O setor de serviços é o único que emprega de forma consolidada os jovens nessas condições – além dos operadores de telemarketing temos os seguranças privados e os motoboys nas grandes cidades, sem contar a empregabilidade do crime. E são todos empregos sem perspectivas profissionais, são apenas vias de empregos mais ou menos estáveis.
O desemprego e a promoção da competição favorecem a tendência de despolitização dos operadores de telemarketing, que não conseguiram manter uma coesão de classe como a dos antigos operários. É uma tendência preocupante: na medida em que o nível de poder e opressão que as empresas atuam sobre os trabalhadores aumenta sem limite, tornando as condições de trabalho em níveis de degradação física e mental comparado até ao dos trabalhadores londrinos do século XIX.
Essa realidade precisa ser mudada, mas ela vai continuar enquanto a pressão do mercado informacional mundial existir, e os esmagados pela pressão continuarão sendo os trabalhadores, os operadores, os nossos novos proletários. E os que vão continuar ganhando serão os mesmos. Uma história velha com mais uma página e uma lesão por esforço repetitivo.
Por R. Poke Ito
São Paulo – Reforma Urbana e a mediocridade no debate.
A maior cidade do Brasil está nas manchetes da grande mídia novamente não pela sua grandeza, mas por sua obesidade mórbida.
As notícias sobre a violência urbana deram espaço a uma questão que há tempos enlouquece os paulistanos: o trânsito. Mesmo que os crimes não tenham parado, a imprensa resolveu que a bola da vez na cidade é a seguida quebra de recordes de congestionamento. Todos ocorridos nos últimos 60 dias.
Seguindo a lógica do pensamento burguês da elite que também alegra a classe média paulistana conservadora e aterrorizada, as principais redes de TV da cidade (Globo, Record, SBT, Bandeirantes) chamam a atenção para o caos em que se transformou Sampa com seus 12 milhões de habitantes e 6 milhões de carros.
Entrevistam motoristas, motociclistas, técnicos de trânsitos, secretários municipais e todos fazem o mesmo discurso: não há solução de curto prazo, é preciso proibir a circulação de caminhões nas ruas, entrar em funcionamento o rodoanel e cobrar pedágio urbano para financiar obras do metrô. Alguns entrevistados chegam até citar a questão do transporte público, porém de forma displicente e enfadonha.
Mas a realidade total dos fatos não é bem essa, como já poderíamos esperar. Os movimentos sociais e especialistas que estudam e debatem a reforma urbana não estão sendo ouvidos mais uma vez. Pois isso não interessa para quem “divulga” informações.
Dentro do conceito dos movimentos e especialistas da reforma urbana o buraco (que nem é do metrô) é muito mais em baixo.
Primeiro é preciso fazer uma avaliação de como se movimenta a cidade. Onde estão seus bairros mais populosos, onde estão os maiores centros de trabalho e a partir daí entender como a população se locomove e com qual meio de transporte. É claro que esses estudiosos já possuem esses dados, bem como a prefeitura e o governo do Estado devem ter também. Porém a maneira de se usar esses dados é que faz a diferença.
De fato, o investimento no transporte público é há tempos muito pouco e atrasado. Mas não é só isso. Os investimentos também dependem de políticas públicas que busquem diálogo com a população e com os movimentos organizados para então direcionar as ações que envolvam o transporte público coletivo em favor do usuário e não dos empresários que lucram com esse direito.
Nos últimos anos vimos a degradação total do sistema de ônibus da capital culminando no final de 2007 com o corte de várias linhas no extremo sul da cidade onde a população de periferia depende exclusivamente de ônibus para trabalhar, estudar e lazer. Justamente nessas regiões aconteceram recentemente vários protestos, com queima de ônibus, apedrejamentos e fechamento de ruas. Todos esses protestos organizados (ou não) de forma autônoma pelas pessoas. Sem a coordenação tradicional da esquerda nessas ocasiões. Sinal de que algo está mudando também nas ações populares e que a esquerda está cada vez mais longe de resolver sua crise interna.
Além da falta de controle das políticas impostas pelas empresas de ônibus nós temos também um crescimento populacional cada vez mais desorganizado e um possível colapso no metrô. Tradicional orgulho dos paulistanos, o metrô teve quatro panes consecutivas em 18 dias durante os meses de janeiro e fevereiro e a ampliação e construção de novas linhas não responde a necessidade da maioria da população. E ainda as tentativas do Estado em privatizar linhas e a desestrutura do sindicato aliados a crescente exploração imobiliária que vive São Paulo faz com que a luta por esse transporte fique voltada apenas para a questão salarial. O que na verdade é muito cômodo para o governo, já que exclui o mesmo de responder por um projeto para a cidade.