Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

15.5.07

O mestre sala das ruas

Agora eu já não preciso mais contar com o acaso para encontrar o meu amigo Zanganor, ele comprou um celular. Não por sofisticação – faz questão de explicar – mas por necessidade. "Vivendo de bico como eu vivo, me ocupando daquilo que aparecer, preciso ser facilmente localizado, do contrário chego sempre atrasado e acabo perdendo a vaga".
A vida do Zanga não é nada fácil. Por medida de economia, seu celular não faz chamadas, só recebe. Entretanto, toda vez que preciso recarregar a bateria, ligo para ele, e se por ventura dá caixa postal, não me constranjo em deixar-lhe recado para me retornar a ligação. Gosto de ouvir sua voz melodiosa repetir bem humorada a pilhéria costumeira:
- E aí, parceirinho, quando é que você pretende se dar a honra de me pagar um almoço?
Enquanto esperamos pela comida, entre uma bicada e outra na Ypióca, ele me põe a par de suas batalhas cotidianas:
- Esses políticos não dão trégua, sobretudo a nós, cidadãos de 3ª categoria. Tanta coisa séria para consertar nesta terra desamparada e o homem só se preocupa com o glacê. A onda agora é despoluir visualmente a cidade. Veja você. E como é que ele pretende esconder as pessoas, aquelas que não são sequer cidadãs?
Gosto de ouvi-lo falar, por isso não interrompo; apenas concordo com um gesto, enquanto reparto a comida nos pratos. De repente ele levanta o tom:
- Que os rios se agigantem e que a terra trema soterrando novos heróis anônimos! Se a cidade estiver visualmente limpa, tudo estará perfeito! Isso não é lindo, parceirinho?! – Veja você, agora, com a chegada do Papa, os mendigos sumiram da praça como num passe de mágica. Ou seria mais oportuno dizer como num milagre?
Pergunto se ele tem conhecimento do aumento de 28,5% nos salários dos parlamentares, aprovado na calada da noite de veneração religiosa.
Os outros fregueses se voltam intrigados, mas Zanga sequer os vê. Então, fixando o olhar no infinito, resmunga para si mesmo:
- Que venham as águas! Eu sigo sempre remando.
Peço o café e a nota. Dando-se conta de que o tempo escoa, ele me explica debochado a razão de sua preocupação:
- Arranjei um bico para o mês que vem: homem-placa na 24 de maio. É mole? Agora imagina você se o manda-chuva resolver implicar com o tamanho das nossas tabuletas. Vai ser o caos. Por mim, decreto desde já o estado de alerta.
Saímos. Zanganor me aperta calorosamente a mão e desce a rua quase sambando, com a alegria de um mestre-sala. Fico olhando até ele dobrar a esquina, orgulhoso de ser seu amigo.
Não sei por que me lembro do belíssimo conto do mestre Machado, "O empréstimo", e aproveito para deixá-lo como sugestão de leitura.

Por Abacuc

criado por sheppa    16:11 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por Pajeú — 16.5.07 @ 0:10

    Belíssimo texto…

  2. Comentário por Pajeú — 19.5.07 @ 22:53

    Cada vez que leio essa crônica (?), gosto mais…

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