Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

6.5.07

A virada cultural…

“Virada cultural”, inspirada em eventos de grande sucesso de cidades européias, há três anos a cidade de São Paulo promove esse grande dia de apresentações artísticas pelo centro da e cidade por outros bairros – shows de música, dança entre outros espetáculos.
O crescimento e o aumento da popularidade deste mega-evento coincide com a patente negligência das nossas autoridades em relação à cultura, ao lazer, aos eventos de grande projeção para as massas etc. Não há mais espetáculos gratuitos e semanais no Ibirapuera, os CEUS foram reduzidos a meras escolinhas, verbas reduzidas e o cancro chamado iniciativa privada reduz a cultura, o lazer e a educação para as massas carentes à uma tacanha e insuficiente atitude assistencialista, ou, o que é pior, financiando (via incentivo fiscal) atrações e mega-shows para as classes mais abastadas.
A virada cultural tornou-se um oásis populista e demagógico ante à aridez e a pobreza de eventos populares.
Mesmo assim, resolvi prestigiar alguns artistas que gosto e que estariam presentes na milionária “virada”. Fui com namorada, irmão e amigos para o centro da cidade. Show do maravilhoso Alceu Valença iniciando-se com o badalar dos sinos de nossa catedral. O clima era festivo. Famílias, jovens, moradores de rua etc., um clima de uso justo e digno da cidade. Terminado esta apresentação de abertura, colocamo-nos a perambular pelas ruas centro. Víamos fragmentos de shows, até decidirmos parar em um bar no Vale do Anhangabaú. Distribuímos uns zines, conversamos e, sobretudo, observávamos a cidade.
Não foram poucas as vezes em que a idéia de uma multidão tomando a cidade, ou o poder de assalto, veio à minha cabeça. Tomada da Bastilha. Não se via um policiamento ostensivo: o que para mim parecia maravilhoso – tudo corria tranqüilamente, sem a necessidade da presença da autoridade.
Lá pela meia-noite, voltamos à Sé, para o show da excelente banda Nação Zumbi. Ali percebi que seria insustentável o bom andamento do evento. Uma multidão tomava a praça e o seu entorno. Pessoas escalavam árvores, as muretas do metrô, até uma banca de jornal virou camarote (algumas pessoas, num determinado momento, começaram a se esmurrar sobre a tal banca). O alicerce do telão com pessoas trepadas. Aliás, um telão ridículo. O som insuficiente. Não se via nenhuma estrutura: além dos poucos e sujos banheiros químicos, não se viam muitos serviços oferecidos, nem ambulatórios. Os poucos homens da Guarda Civil Metropolitana, passivos.
Um campo de guerra, um barril de pólvora se formava aos poucos. Decidimos voltar para as imediações do Teatro Municipal. No meio do caminho decidi voltar para casa (sábado para mim é um dia de acordar cedo e trabalhar). Alguns amigos já tinham deixado o centro, outros decidiram continuar e virar a noite para esperar as atrações de domingo.
Hoje cedo fui acordado, por volta das 07hs da manhã, pelo meu irmão. Já de volta. Disse-me que as apresentações estavam suspensas até 10hs, depois que um quebra-quebra no show dos Racionais MC’s, gerou conflitos com a polícia. A praça da Sé, um campo de batalha.
Tomado por uma grande melancolia, pela sensação de que, mais uma vez, o dinheiro público foi mal gerido, tomou-me. Fui então buscar por notícias. As poucas que apareciam culpavam os Racionais, suas letras, seu público. Ou seja, a arraia miúda, a gente de periferia, os vândalos causaram danos ao presente que nossas autoridades ofereciam para “gente-de-bem”.
A “virada” feita para que os cidadãos paulistanos pudessem participar da vida de sua própria cidade. Contudo, diante da precariedade do palco principal, o da Sé, o som baixo, a falta de telões, sentia-me alguém que não tinha sido convidado para esta festa. Parecia-me que os organizadores esperavam por aquele público do mostrado pela Rede Globo: casais, famílias de classe média, universitários e turistas. No entanto, todas as tribos apareceram. Convidados ou não.
A polícia, que não tinha dado as caras até por volta da 01h, pareceu escolher a dedo: o show dos Racionais. Aos que sempre foi negada a cidade, que não eram desejáveis na festinha, sobrou gás lacrimogêneo, balas de borracha, ou de verdade. Pode haver algo de podre nessas entre linhas.
Punks, manos, pinguços, estudantes, trabalhadores todos têm seus motivos para explodir. Vivem na panela de pressão que cozinha o galo no dia-a-dia. Ontem, puderam extravasar. O caldo entornou e o quebra-quebra é a resposta a essa revolta contida. Pena que falte a consciência de classe e o senso crítico para perceber o populismo e a hipocrisia da “virada”. Teríamos, talvez, a desejável queda da Bastilha.

criado por sheppa    17:28 — Arquivado em: Sem categoria

4.5.07

Lançamento: A Revolução Russa

Comemorando os 90 anos da Revolução Russa, anunciamos o lançamento de
nosso novo livro.

A REVOLUÇÃO RUSSA de Maurício Tragtenberg

editado pela Faísca Publicações Libertárias

Debate com o autor da Introdução do livro, Raphael Amaral, e venda do
livro com desconto.

Quando: Segunda-feira,
7 de maio de 2007 às 19h
Onde: Livraria Ícone Espaço Cultural * Rua Augusta 1415 * Consolação *
SP/SP * Fones: 3288-9206 e 3289-3526 * Próximo da esquina com Av.
Paulista.

criado por sheppa    23:58 — Arquivado em: Sem categoria

2.5.07

Tempos modernos e ocupações urbanas

As lutas dos trabalhadores urbanos de São Paulo vêm desde o final dos anos 70, sofrendo mudanças e se adequando dentro das constantes mutações da conjuntura político/social do país.

Tínhamos já no período final da ditadura militar as grandes greves metalúrgicas que fortaleceram os sindicatos, mobilizaram outras classes de trabalhadores, além de estudantes e intelectuais, influenciando inclusive na campanha do “Diretas Já”.

Em meados dos anos 90 com fechamento de grandes empresas na capital paulista, a burocratização dos sindicatos e a promessa de melhorias econômicas via Plano Real, as greves ficaram cada vez mais escassas e diversas vezes foram usadas como golpe de empresários contra governos “mais progressistas”.

A radicalização da luta no campo pela reforma agrária organizada principalmente pelo MST, encontrou espaço nesse vácuo deixado pelos sindicatos na organização da classe trabalhadora. Ganha força uma outra forma de luta, já utilizada antes em menor escala e em países da Europa e EUA. : a Ocupação Urbana.

Movimentos por moradia começaram a se organizar dentro das periferias, exigindo do poder público a construção de casas populares, o incentivo a mutirões, o cadastramento de moradores por região, além da desapropriação de latifúndios urbanos. Muitas das Associações de bairro se tornaram Frentes de Lutas dentro das comunidades locais,articulando as forças e as reivindicações bairro a bairro.

Com uma enorme demanda de problemas e dificuldades relacionados à questão de moradia, essas frentes passam a ter estudos específicos e debates elaborados sobre ecologia, educação, mobilidade urbana e outros temas urbanos unindo-se dessa forma a outros movimentos sociais.

Do MST surge o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) para dar ainda mais peso político a essas frentes e comunidades. Cresce também as mobilizações por uma profunda reforma urbana que bate de frente com a lógica da exploração imobiliária, o aumento do emprego informal (coincidente com a dificuldade de se conseguir e manter empregos na formalidade) e finalmente a organização dos moradores de rua.

Nessa última, destaque para o MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro), que articula suas ações em prédios abandonados no Centro paulistano.
Outro fator importante dentro das ocupações urbanas é a participação e o apoio de grupos culturais e coletivos libertários dentro das Frentes de Luta. Com o aumento da decepção com velhas organizações de esquerda e partidos políticos, esses grupos e coletivos enxergam nas ocupações a melhor maneira de interferir diretamente na sociedade e onde podem atuar regionalmente.

Dessa atual forma de ação direta urbana é preciso um debate muito mais profundo e esse texto pretende ser apenas o ínicio desse. Da mesma forma que as grandes greves, as ocupações sofrem enorme repressão e tentativas de desmoralização por parte dos governos, da elite e da grande mídia, que faz a sua parte na defesa do ideal burguês contra toda e qualquer organização popular.

O importante no momento é saber que a mobilização subversiva pode sempre se renovar. Atuar tanto na frente institucional quanto na ação direta e que essa subversão pode ser uma espécie de resina, tomando todos as brechas desse concreto do poder opressivo, unindo as particularidades de cada fresta até que rache o concreto todo.

d.B. Cooper

Este texto faz parte da edição n}4 do Zine Sheppa de Ingratu.

Você pode baixar o zine completo no sítio do C.M.I.

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/04/380602.shtml

criado por sheppa    21:18 — Arquivado em: Sem categoria

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