Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

29.6.07

Grito

GRITO

Degusto o futuro da nação no bar da esquina
Bem gelado, o verde-louro invade o ser
E contamina
Inflama a pira revolucionária escondida em meu copo.
Os olhos do presidente, na televisão
Observam os meus, furiosos
E os companheiros de armas na mão
Copos gelados de impetuosa filosofia.
Há um revólver embaixo do balcão
O presidente na tela sabe disso
Suspeita da Revolução
Do povo à porta do sanitário, prestes a gritar.
- Truco! – explode a rebelião.
Gritos. Fumaça. Olhos vermelhos de raiva.
Copos estirados no chão.
Engatilhados, os cigarros miram o presidente e exigem justiça.

Por Brancaleone

criado por sheppa    15:41 — Arquivado em: Sem categoria

27.6.07

Mas que falta de educação! ! Parte I

1)Para que serve a Escola? Francisco Ferrer

Podemos responder a essa pergunta de forma rápida e sem pensar muito.
A escola serve para formar o ser humano, torna-lo sociável e instruí-lo com conhecimento.
Porém essa questão é bem mais complexa e delicada para uma resposta assim, de “bate-pronto”.

A seriedade da educação é tida sempre como um fator primordial na formação de uma sociedade. A instrução de um povo é refletida em suas relações pessoais e no desenvolvimento do meio em que vive.

Sim concordo. Mas não é apenas isso.
Como essa educação é fornecida e a forma como o saber é compartilhado são pontos fundamentais na formação dessa sociedade.O tipo de escola que temos irá determinar sim o tipo de estrutura social em que viveremos.Uma escola exclusivista e elitizada irá, por exemplo, formar uma comunidade de excluídos.

A violência e o atropelo capitalista chegaram há muito tempo na escola dominando seu sistema pedagógico. A educação na verdade sempre foi artifício de opressão e exclusão social. Salvo em poucos casos de caras escolas particulares, a relação Fordista de ensino que entope estudantes com um conteúdo programático/pedagógico sem profundidade (e sem interesse de se aprofundar em nada), contamina todas as esferas educacionais fazendo da instituição Escola uma máscara enfadonha, onde pouco importa as relações humanas, as individualidades ou mesmo a formação do pensamento independente. Na realidade se estimula a competição (como no mercado de trabalho) entre quem conseguirá as melhores notas repetindo exatamente o que os livros dizem, sem nenhuma chance de estudo crítico.

Estabelece-se então que a escola serve para criar “grandes executadores de tarefas”, alguém que servirá ao sistema sem questioná-lo e assim poderá ser bem pago pela sua contribuição.

A Escola, como tem sido organizada e sustentada pelo Estado em parceria com um setor privado que explora a “mercadoria” educação, não só é alienante como também é alienada ao círculo social em que está estabelecida. No caso específico da Escola Pública, onde a já excluída e massacrada população das classes mais pobres é usuária, a total falta de compromisso e diálogo com a comunidade, unida a uma política de pouco investimento financeiro e estrutural leva a situação do ensino a um caos completo e assim por anos vivendo num círculo vicioso, que obviamente não interessa, nem ao Estado, nem ao setor privado que acabe.

Não é possível mais deixar a comunidade isolada da Escola Pública no que se refere ao projeto pedagógico, formação de conselhos, financiamentos, eleição de diretoria. Ou seja, a participação ativa e organizada da população dentro da escola é bem maior e mais profunda que simplesmente abrir a Escola aos finais de semana para campeonatos esportivos ou feiras de artesanato.

O primeiro passo a ser dado para que possamos pensar num outro tipo de ensino e numa Escola Pública de qualidade é a abertura de um diálogo radicalmente democrático com a comunidade. Dessa forma organizada e autônoma poderá então se forçar na queda de braço com o poder público, uma reestruturação completa não apenas na qualidade do sistema, mas também em seus métodos e políticas. Podemos inclusive ter um grande avanço na questão acima apresentada.
Afinal…para que serve a escola?

d.B. Cooper

criado por sheppa    0:56 — Arquivado em: Sem categoria

26.6.07

A caminhada…

Como toda terça-feira, por volta das 19hs, hoje eu também saía do metrô. Estação Saúde, mais uma vez, voltando da labuta.

Quando subia as escadas rolantes, um informe do pessoal da técnica do metrô: "por falhas na estação da Sé, o metrô circulará com maior lentidão…".

Para quem mora na metrópole desvairada, ou para quem acompanha os noticiários, a lembrança recente é inevitável: sexta, dia 15/06/07, um caos fora provocado por falhas na operação do metrô na altura da estação Liberdade, paralisou a "terra da garoa". A linha verde teve sua operação cancelada, horas de espera para embarcar, trânsito infernal, circulação de trens e ônibus comprometida.

Naquele dia voltava de um cuso no Catumbi, próximo à estação Belém. Fiquei cerca de duas horas na estação Sé, aguardadando o embarque. Esperei, não estressei. sentei-me no chão e sobrou-me tempo para a leitura (textos excelentes do educador Moacir Gadotti - discípulo de Paulo Freire). Passadas essas duas horas, resolvi sair do metrô e caminhar. Iria andando para algum lugar…veio à minha memória imagens de Rousseau, Thoureau e Herman Hesse. Todos falam do teor libertário das camihadas. Tudo bem que ir da Sé à subida da Brigadeiro Luís Antônio, não tem nada do Idílio campestre e bucólico de que falam os pensadores citados.

Noite agradável. Fui da Praça da Sé à Estação Ana Rosa. Cerca de 45 minutos de passos lentos e contemplativos. Só pensava em uma cerveja gelada e em uma porção de amigos m volta da mesa, uma sexta-feira merecida.

Durante a caminhada pensei como seria belo se o povo tomasse consciência do tratamento de res que se nos dispensava, VIDA DE GADO. Ainda na saída do metrô falava alto, pra mim mesmo, como quem quer se convencer e quer incitar algo em alguém pescasse as minhas palavras: "avise ao governador que preço da passagem é muito caro pra essa bosta", "não aceitemos isso, que não somos ovelhas" entre outras frases de teor semelhantre. Subindo a Brigadeiro imaginava como seria bonito toda aquela gente, que excepcionalmente estava a pé, caminhar em direção ao palácio do Governador, à Câmara dos deputados.

Durante a caminhada vi as pessoas presas no trânsito e sonhei com a gente abandonado ônibus, motos e carros, confraternizando-se, trocando gestos de carinho - um estado de carnaval permanente.

Refleti e vi na prática como o Estado (não só a unidade federativa de São Paulo, mas o Estado Brasileiro em geral) e seus "gerentes" são incapazes de atender às necessidades básicas dos cidadãos. Quem dirá então dos anseios populares? Imaginem esse Estado promovendo a felicidade de nossa gente - difícil, não?

A caminhada permitiu-me observar uma série de casarões abandonados - vislumbrei os "sem-teto" ocupando-os, levando vida e alegria àquele casario, vultos de nossa história, instrumentos de especulação imobiliária…

Vi em minha mente Paris, 1871, ano da famigerada "Comuna".

É, não eram os verdes campos da Alemanha de Hesse, não eram os bosques de Thoureau, nem as estradas francesas atravessadas por Rousseau. Mas a caminhada, para mim, fora libertária. Ao menos no coração.

Pajeú S. 

criado por sheppa    20:20 — Arquivado em: Sem categoria

25.6.07

O Grande Chaplin

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

 

Será que o Bush já leu esse texto?

Cadu

criado por sheppa    14:40 — Arquivado em: Sem categoria

21.6.07

A versão do demônio

A VERSÃO DO DEMÔNIO

Um dia fui excomungado
Denunciado pela lama em minhas botas
Lama livre, recolhida em linhas tortas
Que o pai me havia indicado.

Quando os pêlos ‘inda me nasciam
Eu já estava a abusar de meus caninos
Sendo a vanguarda entre os meninos
Enquanto tenros corações já se partiam.

Toquei na mão de Deus e estava fria
De joelhos, o farrapo ‘inda implorava
Que ouvisse o sermão que me cabia
Liturgia dita bem intencionada.

Parte da nossa conversa se perdeu no tempo
Ele teve sua face benta emoldurada
E eu permaneci, na beira da estrada
Esperando uma carona do vento.

Por Brancaleone

criado por sheppa    19:53 — Arquivado em: Sem categoria

Buteco socialista…

VAI AÍ UMA POSTAGEM QUE É SÓ PRA SACANEAR:

Um dia desses o companheiro Wu sugeriu que entrássemos numa comunidade do Yorgut chamada Butiquim Socialista.

Apesar de não ter entrado na comuna, adorei o nome e a idéia. Afinal socialismo e buteco estão entre as minhas coisas favoritas.

Falando nisso, vejam que coisa incrível:

Comunidade "Passando um trótski""

- Alô, por favor, o Czar Nicolau II está?
- Desculpe, não tem ninguém com esse nome.
- Posso falar com ele?
- Eu disse que não tem ninguém aqui com esse nome…
- Certo, avisa pra ele que o Leon ligou.
- Moço, aqui não tem NENHUM NICOLAU!
- Ah, então PEGA NO MEU PAU!!! hauhwuahwuahwuahwuahwauw

(TU, TU, TU…)

Isso é que é piada digna de buteco…socialista!!!

- Alô, é do Kremlin?
- Não, aqui é residência.
- Aê sangue bom, seguinte! Fica ligeiro que os bolchevique tão baixando aí pra estourar a revolução, provocar a derrubada violenta da ordem social vigente e instaurar a ditadura do proletariado!
- Vá, revolução no cu da tua mãe, moleque desocupado!!

(TU, TU, TU…)

criado por sheppa    15:41 — Arquivado em: Sem categoria

19.6.07

Só uma flor

Uma flor nasceu no agreste
Numa tarde repentina
Em solo duro e seco
Como a vida do nordestino

Um ponto de vida no marrom
Era o brilho de suas pétalas.
Lilás
Era essa sua cor
Como o coração do nordestino

Todos saíram assustados
Levando a enxada e o cansaço nos ombros
Para ver,
naquela famigerada tarde,
Uma estranha flor que brotou
No solo que nada dá

Nasceu de teimosa
Subversiva

Nasceu bela flor no solo
Em que não brota nem xique-xique

Crianças descalças,
De mãos calejadas,
olhavam risonhas
Ninguém ousava chegar
Perto
Admiravam como se vissem encantamento
Mas era flor real
Tinha alma, vida e cor
E se atreveu nascer no sertão

Sertanejo velho olhava para o céu
Procurava alguma resposta
Nenhuma nuvem estava
À flor deram nome de Deus

Querendo saber o que tinha
Que tanta pessoa olhava
Menina da cidade grande
Com retrateiro na mão
Também quis espaço na roda

E, vendo tão bela cena
Um milagre colorindo o secume
Não teve dúvidas
Arrancou a beleza mais rara
E enfiou no cabelo

Acabou flor roxa no solo
Acabou colorido na terra
Acabou milagre e salvação

A menina saiu sorrindo
Sertanejo voltou para a lida
Crianças de volta ao trabalho
E tudo voltou ao normal.

Por Andréia Marin

criado por sheppa    19:51 — Arquivado em: Sem categoria

18.6.07

Pacote único

Dia desses, parei no Largo do Arouche para engraxar os sapatos e me entreter com um artigo do jornal. Não cheguei a me interessar pelo artigo porque, assim que me sentei, ouvi uma voz melodiosa dizer a um senhor engravatado que ocupava a cadeira ao lado da minha:
- Pronto, doutor, pode trocar de pé!
Era a voz do Zanganor, um camarada que conheci preenchendo pule de jogo do bicho numa banca da Vila Maria. Naquele tempo eu tinha muito boa vontade e alguns contatos para trabalhos temporários, e ele necessidades de sobra e um bocado de simpatia. Foi assim que trocamos alguns favores, alguma confidência e várias horas de convívio fraternal. A última vez que nos víramos, há cerca de dez anos, ele fazia entregas com bicicleta para uma farmácia do centro.
- Mais essa, Zanganor, engraxate agora?! – perguntei.
- Pois é, parceirinho (doutor é só para os engravatados), pra driblar as dificuldades é preciso dar nó em pingo d’água. Mas ‘tou aqui temporário, cobrindo a vaga de um companheiro acidentado. – esclareceu sorrindo, contente por me rever.
- Sabe como é, num dia entrego água, noutro trabalho na feira, e assim vou batalhando o pão-de-cada-dia. Se naquele tempo já era pedreira, imagine agora, com mais de cinqüenta no lombo…
Nesse ponto, o engravatado resolveu se intrometer. Veio com uma conversa antipática de que o discurso do Zanga era comodista e que ele devia era arranjar uma renda fixa e certa. Como? Ora, não vivemos nós na terra do jeitinho? O que importa hoje é aprender a bajular as pessoas certas. Pessoas que possam abrir portas, ou ao menos indicar o caminho das pedras. Não digo desfrutar como eu de um cargo de confiança, para isso é preciso know-how. Mas uma aposentadoria por invalidez, uma Cesta Isso, uma Renda Aquilo… Com uma dessas coisas garantidas, o que entrar a mais é puro lucro.
Senti vontade de interceder, dizer-lhe poucas e boas, inclusive alguns clichês. Poderia argumentar que o brasileiro está com o saco cheio de esmolas disfarçadas por títulos sofisticados; que o povo precisa é de boa escola, trabalho bem remunerado, saúde qualificada, etc. Ou então partir logo para um bate-boca mais sério, dizendo de saída que era por causa de sanguessugas como ele que o país não andava. Mas, para minha sorte e comodidade, não precisei. Embora de maneira simples, mas com a sabedoria de quem conhece as dificuldades de dentro para fora, o Zanganor foi contundente na resposta:
- Que é isso, doutor?… Sou brasileiro porque Deus quis, muambeiro por necessidade e honesto por formação. O pouco que entra lá em casa é fruto de intensa batalha, e eu me orgulho disso. Essas migalhas que o governo oferece cheiram a maracutaia, a enganação. Eu, se um dia fosse governo, faria um pacote único, e dentro dele poria uma ferramenta que permitisse ao povo obter tudo o que precisasse com o suor do seu trabalho.
Sem jeito, o engravatado voltou à leitura, tentando não perder a pose.
Senti vontade de abraçar o Zanga e troquei com ele um sorriso cúmplice. Mentalmente batizei o seu pacote: dignidade.

Por Abacuc

criado por sheppa    10:12 — Arquivado em: Sem categoria

12.6.07

Faço 30

Faço 30.
E é assim quase indolor
Repente, piscadela.
Algumas marcas no rosto e nas costas
e umas tantas gravuras
impressas, à meia-luz do espírito,
faço 30.
Supõe-se que estive aprendendo coisas
estaria uma década à frente
do rapaz cheio de tempo.
Por trás das marcas de corpo, de calendário
sigo rapaz, e sim e sempre
faço 30
"Como o fizera de fato há tempos"
- protesta o corpo.
Crise de bronquite não impedirá
Que eu atravesse a noite
e irrompa em uma nova década.
Sou decidido quanto a isso:
é maio, é 30, é noite
e, sim, eu faço.
Faço 30, como quem tem cócegas
Incomodado, sinto prazer.
Faço 30 e já posso amar
Lutar, caminhar
e até chorar como um homem.

 

Por Brancaleone

criado por sheppa    14:31 — Arquivado em: Sem categoria

4.6.07

Dia de reis

Enquanto assistimos ao teipe, eu e o Biduílio tomamos uma birra bem gelada. A varanda da casa dele é ampla, e a porta de folha dupla permite que se assista a tevê 29’ do lado de fora.
Biduílio é nosso cardeal, pois Roberto e eu, ao nosso modo, somos reis.
O piso da varanda é revestido de lajotas pretas e brancas. Talvez por isso, penso num imenso tabuleiro de xadrez. Atento aos menores detalhes do filme, Roberto é o rei branco, e, embora ele não me olhe, sei que está irritado comigo. Um pouco porque eu sou o rei preto, um pouco porque este é mais famoso que o outro. Irrita-se também porque eu bebo mais do que devia e deixo cair uns pingos sobre a mesa. Assustado com o líquido escorrendo pelo tampo, mas sem desgrudar os olhos da tevê, ele pede um pano à menina do Biduílio. Enquanto Roberto restaura a ordem na mesa, o filme acaba. Então ele aproveita pra soltar os cachorros sobre mim:
- Que porra, negrão, toma juízo! Olha a imagem, cacete! Olha tua barriga, teus olhos empapuçados, teus dentes amarelos de cigarro!
Porra, negrão, nós somos os reis, se liga nisso!
Como sempre, baixei os olhos envergonhado. Sósias de celebridades, que merda! Melhor vida leva o Biduílio, basta olhar a casa dele. Não tem imagem a preservar, bebe enquanto pode, e ainda se diverte com as nossas brigas idiotas. Agente! Inscreve-nos nos programas mais imbecis, vestidos como palhaços (a caráter, ele diz), carregando bolas, tochas, violas desafinadas, microfones desligados, entre outras bugigangas sem serventia.
Roberto já se acalmou. Ajeita os longos cabelos, alisa a roupa impecável e se desculpa pelos excessos:
- Sabe, negrão, é que quando você pisa na bola, suja também a minha água. Afinal, aparecemos quase sempre juntos, temos o mesmo empresário (agente!)… Só falo pro teu bem.
Dou de ombros. Sei que enquanto discutimos esses pormenores podem estar cortando a água, a luz ou o telefone lá de casa. Sei que a Diná, como sempre, vai perguntar se eu não vou acordar desse delírio e procurar um emprego que garanta a subsistência da família. Vai repetir que o cachê, assim como nós, é mero sósia de uma remuneração. Se me rebelo com o Biduílio, ele faz cara de vítima e me chama de ingrato:
- Te arrumo vinte minutos de exposição e você só pensa na porra do dinheiro?!
Para espantar esses maus pensamentos, emborco rapidamente minha cerveja. Peço à menina que encha outra vez os copos, inclusive o do Roberto.
- Tá bom, Biduílio, mon cardeal, de novo você venceu! Quero levantar um brinde!
Os dois me olham desconfiados, e eu, escorado no tampo da mesa, ergo um braço como se levantasse a copa do mundo e grito bem alto:
- Meu reino por uma câmera!

 

Por Abacuc

criado por sheppa    14:50 — Arquivado em: Sem categoria

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