4.6.07
Dia de reis
Enquanto assistimos ao teipe, eu e o Biduílio tomamos uma birra bem gelada. A varanda da casa dele é ampla, e a porta de folha dupla permite que se assista a tevê 29’ do lado de fora.
Biduílio é nosso cardeal, pois Roberto e eu, ao nosso modo, somos reis.
O piso da varanda é revestido de lajotas pretas e brancas. Talvez por isso, penso num imenso tabuleiro de xadrez. Atento aos menores detalhes do filme, Roberto é o rei branco, e, embora ele não me olhe, sei que está irritado comigo. Um pouco porque eu sou o rei preto, um pouco porque este é mais famoso que o outro. Irrita-se também porque eu bebo mais do que devia e deixo cair uns pingos sobre a mesa. Assustado com o líquido escorrendo pelo tampo, mas sem desgrudar os olhos da tevê, ele pede um pano à menina do Biduílio. Enquanto Roberto restaura a ordem na mesa, o filme acaba. Então ele aproveita pra soltar os cachorros sobre mim:
- Que porra, negrão, toma juízo! Olha a imagem, cacete! Olha tua barriga, teus olhos empapuçados, teus dentes amarelos de cigarro!
Porra, negrão, nós somos os reis, se liga nisso!
Como sempre, baixei os olhos envergonhado. Sósias de celebridades, que merda! Melhor vida leva o Biduílio, basta olhar a casa dele. Não tem imagem a preservar, bebe enquanto pode, e ainda se diverte com as nossas brigas idiotas. Agente! Inscreve-nos nos programas mais imbecis, vestidos como palhaços (a caráter, ele diz), carregando bolas, tochas, violas desafinadas, microfones desligados, entre outras bugigangas sem serventia.
Roberto já se acalmou. Ajeita os longos cabelos, alisa a roupa impecável e se desculpa pelos excessos:
- Sabe, negrão, é que quando você pisa na bola, suja também a minha água. Afinal, aparecemos quase sempre juntos, temos o mesmo empresário (agente!)… Só falo pro teu bem.
Dou de ombros. Sei que enquanto discutimos esses pormenores podem estar cortando a água, a luz ou o telefone lá de casa. Sei que a Diná, como sempre, vai perguntar se eu não vou acordar desse delírio e procurar um emprego que garanta a subsistência da família. Vai repetir que o cachê, assim como nós, é mero sósia de uma remuneração. Se me rebelo com o Biduílio, ele faz cara de vítima e me chama de ingrato:
- Te arrumo vinte minutos de exposição e você só pensa na porra do dinheiro?!
Para espantar esses maus pensamentos, emborco rapidamente minha cerveja. Peço à menina que encha outra vez os copos, inclusive o do Roberto.
- Tá bom, Biduílio, mon cardeal, de novo você venceu! Quero levantar um brinde!
Os dois me olham desconfiados, e eu, escorado no tampo da mesa, ergo um braço como se levantasse a copa do mundo e grito bem alto:
- Meu reino por uma câmera!
Por Abacuc


criado por sheppa
14:50 — Arquivado em:
Comentário por Leandro — 12.6.07 @ 14:28
Gostei. Acho importante que esse espaço também seja usado para divulgação de alguma produção artÃstica - poética, ficcional, ensaÃstica. Ao fim, isso acaba sendo complementar aos debates polÃticos e suavizando o blog.