18.6.07
Pacote único
Dia desses, parei no Largo do Arouche para engraxar os sapatos e me entreter com um artigo do jornal. Não cheguei a me interessar pelo artigo porque, assim que me sentei, ouvi uma voz melodiosa dizer a um senhor engravatado que ocupava a cadeira ao lado da minha:
- Pronto, doutor, pode trocar de pé!
Era a voz do Zanganor, um camarada que conheci preenchendo pule de jogo do bicho numa banca da Vila Maria. Naquele tempo eu tinha muito boa vontade e alguns contatos para trabalhos temporários, e ele necessidades de sobra e um bocado de simpatia. Foi assim que trocamos alguns favores, alguma confidência e várias horas de convívio fraternal. A última vez que nos víramos, há cerca de dez anos, ele fazia entregas com bicicleta para uma farmácia do centro.
- Mais essa, Zanganor, engraxate agora?! – perguntei.
- Pois é, parceirinho (doutor é só para os engravatados), pra driblar as dificuldades é preciso dar nó em pingo d’água. Mas ‘tou aqui temporário, cobrindo a vaga de um companheiro acidentado. – esclareceu sorrindo, contente por me rever.
- Sabe como é, num dia entrego água, noutro trabalho na feira, e assim vou batalhando o pão-de-cada-dia. Se naquele tempo já era pedreira, imagine agora, com mais de cinqüenta no lombo…
Nesse ponto, o engravatado resolveu se intrometer. Veio com uma conversa antipática de que o discurso do Zanga era comodista e que ele devia era arranjar uma renda fixa e certa. Como? Ora, não vivemos nós na terra do jeitinho? O que importa hoje é aprender a bajular as pessoas certas. Pessoas que possam abrir portas, ou ao menos indicar o caminho das pedras. Não digo desfrutar como eu de um cargo de confiança, para isso é preciso know-how. Mas uma aposentadoria por invalidez, uma Cesta Isso, uma Renda Aquilo… Com uma dessas coisas garantidas, o que entrar a mais é puro lucro.
Senti vontade de interceder, dizer-lhe poucas e boas, inclusive alguns clichês. Poderia argumentar que o brasileiro está com o saco cheio de esmolas disfarçadas por títulos sofisticados; que o povo precisa é de boa escola, trabalho bem remunerado, saúde qualificada, etc. Ou então partir logo para um bate-boca mais sério, dizendo de saída que era por causa de sanguessugas como ele que o país não andava. Mas, para minha sorte e comodidade, não precisei. Embora de maneira simples, mas com a sabedoria de quem conhece as dificuldades de dentro para fora, o Zanganor foi contundente na resposta:
- Que é isso, doutor?… Sou brasileiro porque Deus quis, muambeiro por necessidade e honesto por formação. O pouco que entra lá em casa é fruto de intensa batalha, e eu me orgulho disso. Essas migalhas que o governo oferece cheiram a maracutaia, a enganação. Eu, se um dia fosse governo, faria um pacote único, e dentro dele poria uma ferramenta que permitisse ao povo obter tudo o que precisasse com o suor do seu trabalho.
Sem jeito, o engravatado voltou à leitura, tentando não perder a pose.
Senti vontade de abraçar o Zanga e troquei com ele um sorriso cúmplice. Mentalmente batizei o seu pacote: dignidade.
Por Abacuc


criado por sheppa
10:12 — Arquivado em:
Comentário por Leandro — 18.6.07 @ 13:57
Mais um bom texto do velho e bom Abacuc. Gostei bastante.
Comentário por Pajeú Suçuarana — 11.7.07 @ 22:57
“Seu dotô o nordestino
Tem muita gratidão
Pelo auxÃlio dos sulistas
Nesta seca do sertão.
Mas dotô uma esmola
A um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha,
Ou vicia o cidadão”".
Velho Abacuc, lembrei-me de Gonzagã, lá de Exú!
Abraços.