Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

26.6.07

A caminhada…

Como toda terça-feira, por volta das 19hs, hoje eu também saía do metrô. Estação Saúde, mais uma vez, voltando da labuta.

Quando subia as escadas rolantes, um informe do pessoal da técnica do metrô: "por falhas na estação da Sé, o metrô circulará com maior lentidão…".

Para quem mora na metrópole desvairada, ou para quem acompanha os noticiários, a lembrança recente é inevitável: sexta, dia 15/06/07, um caos fora provocado por falhas na operação do metrô na altura da estação Liberdade, paralisou a "terra da garoa". A linha verde teve sua operação cancelada, horas de espera para embarcar, trânsito infernal, circulação de trens e ônibus comprometida.

Naquele dia voltava de um cuso no Catumbi, próximo à estação Belém. Fiquei cerca de duas horas na estação Sé, aguardadando o embarque. Esperei, não estressei. sentei-me no chão e sobrou-me tempo para a leitura (textos excelentes do educador Moacir Gadotti - discípulo de Paulo Freire). Passadas essas duas horas, resolvi sair do metrô e caminhar. Iria andando para algum lugar…veio à minha memória imagens de Rousseau, Thoureau e Herman Hesse. Todos falam do teor libertário das camihadas. Tudo bem que ir da Sé à subida da Brigadeiro Luís Antônio, não tem nada do Idílio campestre e bucólico de que falam os pensadores citados.

Noite agradável. Fui da Praça da Sé à Estação Ana Rosa. Cerca de 45 minutos de passos lentos e contemplativos. Só pensava em uma cerveja gelada e em uma porção de amigos m volta da mesa, uma sexta-feira merecida.

Durante a caminhada pensei como seria belo se o povo tomasse consciência do tratamento de res que se nos dispensava, VIDA DE GADO. Ainda na saída do metrô falava alto, pra mim mesmo, como quem quer se convencer e quer incitar algo em alguém pescasse as minhas palavras: "avise ao governador que preço da passagem é muito caro pra essa bosta", "não aceitemos isso, que não somos ovelhas" entre outras frases de teor semelhantre. Subindo a Brigadeiro imaginava como seria bonito toda aquela gente, que excepcionalmente estava a pé, caminhar em direção ao palácio do Governador, à Câmara dos deputados.

Durante a caminhada vi as pessoas presas no trânsito e sonhei com a gente abandonado ônibus, motos e carros, confraternizando-se, trocando gestos de carinho - um estado de carnaval permanente.

Refleti e vi na prática como o Estado (não só a unidade federativa de São Paulo, mas o Estado Brasileiro em geral) e seus "gerentes" são incapazes de atender às necessidades básicas dos cidadãos. Quem dirá então dos anseios populares? Imaginem esse Estado promovendo a felicidade de nossa gente - difícil, não?

A caminhada permitiu-me observar uma série de casarões abandonados - vislumbrei os "sem-teto" ocupando-os, levando vida e alegria àquele casario, vultos de nossa história, instrumentos de especulação imobiliária…

Vi em minha mente Paris, 1871, ano da famigerada "Comuna".

É, não eram os verdes campos da Alemanha de Hesse, não eram os bosques de Thoureau, nem as estradas francesas atravessadas por Rousseau. Mas a caminhada, para mim, fora libertária. Ao menos no coração.

Pajeú S. 

criado por sheppa    20:20 — Arquivado em: Sem categoria

7 Comentários »

  1. Comentário por Josh Lyman — 27.6.07 @ 0:43

    Maravilhoso texto !!

  2. Comentário por Eleanor — 27.6.07 @ 1:33

    Belíssimo!!!!

  3. Comentário por Angélica — 27.6.07 @ 22:39

    Lindo, lindo!
    E me fez lembrar do Rilke:
    “Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.” E entenda-se aí as riquezas do povo, da sociedade, da alma, da vida.
    Beijos!

  4. Comentário por Tati — 28.6.07 @ 7:29

    E agora, invento uma calma pra aturar minhas próximas 10 horas de trabalho, porque esse texto inspira. Sairia andando sem rumo como Forrest Gump.

  5. Comentário por Abacuc — 2.7.07 @ 16:43

    É, Pageú, podia não ser o verde dos campos da Alemanha, nem dos bosques de Thoureau (que, aliás, no Brasil só uma elite privilegiada conhece), podiam não ser as estradas francesas, mas era, sim, um coração liberto por um amor fraternal que quase já não se sente, e quem ainda sente poucas vezes revela. Parabéns por expressá-lo tão fortemente.
    Abraço do Abacuc

  6. Comentário por Abacuc — 3.7.07 @ 9:45

    Desculpe, Pajeú,em meu comentário grafei errado o seu nome. Coisa de gente antiga.
    Abraços

  7. Comentário por Brancaleone — 5.8.07 @ 17:36

    Ah!!!!!!! ENFIM, consigo comentar novamente. Computador de merda. Bom, e não poderia deixar de começar por este, o melhor texto seu que já li, Pajeú, meu amigo. Belíssimo, de um lirismo incrível. Um grande e fraterno abraço.

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