30.8.07
O que diriam esses senhores?

Quem me conhece (quem sabe o tal que se esconde por detrás do nome Pajeú Suçuarana), ou mesmo alguns dos leitores do zine Sheppa de Ingratu e freqüentadores do blog coletivo sabem que sou professor de História no Ensino Básico.
Pois, gostaria de compartilhar algumas de minhas recentes reflexões sobre o ofício de educador, sobre a função do professor nesses inícios de século.
Tais reflexões atormentam-me há mais ou menos dois dias. Não que tenham surgido neste período, mas três acontecimentos vêm fazendo meu sangue ferver, meu coração disparar e meu cérebro latejar:
Ontem (dia 29/08/2007) descobri, ou melhor confirmei rumores que chegavam aos meus ouvidos, que um ex-aluno, que esteve comigo até dois anos atrás, juntou-se, aos 16 anos, a milhares de jovens brasileiros: usuário de drogas, parte para mais uma reprovação escolar e realiza pequenos furtos, atos de vandalismo entre outras cositas más. Bom aluno, carinhoso, alegre e divertido. Mais um tragado pela falta de perspectivas, pela violência, pela incapacidade e falência da escola, do Estado, da família…ou sei lá por culpa de quem!
Hoje cedo, logo ao chegar na escola para mais um dia de trabalho, ouço uma colega comentar que flagrou um dos nossos alunos de 8ª série (ou 9º ano – que seja!) cheirando cocaína. Problemas com drogas, vida difícil, violência, aflições, carência e pobreza…não são novidades para quem trabalha com crianças e adolescentes. Mas confesso que ao receber tal notícia, meu coração ficou cortado. Deu-me vontade de fazer meia volta e voltar para casa. Uma criança de 14 anos cheirando cocaína…caralho, que bosta!
Depois de três aulas amargas, improdutivas e sem graça, preparava-me para ir embora, quando percebi num canto da sala, uma queridíssima aluna, de uns 12 ou 13 anos, chorando, quieta, com um olhar longe e triste. Sem insistir muito perguntei a ela se estava tudo bem. Disse-me que sim. Respondi-lhe com um sorriso e lhe disse que, se precisasse, que me procurasse e eu ajudaria no que fosse do meu alcance. Já na sala dos professores, contei o ocorrido com uma colega. A professora me disse que a tal aluna havia estado com a coordenadora. Haviam descoberto (graças a denúncias de outros alunos) que o irmão da pequena garota, um marmanjo de 18 anos, havia tentado estuprá-la.
Óbvio que além de me esconder sob Pajeú, preservo o nome das escolas em que trabalho e dos alunos. Estas palavras escritas em frente ao computador, fazem rolar algumas lágrimas que queimam minha pele, um nó triste e indignado fecha-me a garganta.
O que estamos fazendo em nossas escolas? Por que não somos capazes de oferecer algo melhor pra essas crianças? Por que isso tudo acontece?
Quanta bosta sou obrigado a ensinar. Nossas aulas não satisfazem, não têm sentido ou importância para esses jovens do mundo da informação, da Internet, do i-pod. Perdemos, somos menos atraentes do que qualquer programa de televisão ou vídeozinho do Youtube. O mundo “bandido”, a “vida-louca” são mais atraentes do que a Revolução Cubana – e olha que não sou nenhum burocrata, ou papagaio dando aulas. Mas, Che Guevara deixa de ser ícone. Pânico, Jack Ass, Funk carioca são símbolos desta geração.
Contudo, cabe refletir: será somente esse o problema?
Por que haveriam esses alunos algum interesse pelas Grandes Navegações? O que não estariam pensando esses alunos durante a aula de Reformas Protestantes? O que não se passava na cabecinha da minha querida aluna, enquanto eu, insensivelmente, lhes falava da colonização do Brasil?
Pra que tudo isso? Não foi isso que imaginei quando optei pelo Magistério! Não quero dar notas, nem provas! Não quero que saibam em que ano aconteceu a porra da Revolução Francesa! Quero que eles tenham carinho, atenção, segurança. Quero que façam a diferença…eu quero é que eles façam a Revolução que nós já mostramos sermos incapazes de fazer.
Pajeú S.


criado por sheppa
16:23 — Arquivado em:
Considerada uma vergonha para o exército, a história da Guerrilha do Araguia pode ainda revelar muitos fatos importantes para as famílias dos guerrilheiros mortos e para uma apuração profunda e real do que foram os anos de chumbo no país. Mas enquanto houver resistência e omissão na abertura dos arquivos da ditadura estaremos a lamentar que é preciso esconder a verdade do povo para que se possa "governar" o país.

tá, mas e daí?
