16.8.07
Hamlet ou O Elogio da Ação
Hamlet ou O Elogio da Ação 
A irrupção de um novo século trouxe consigo inúmeras transformações, mas não eliminou do coração da vida humana a presença de um conflito que cada vez mais se generaliza. De um lado, a concentração, o esbanjamento, o supérfluo, a fartura; de outro, a miséria, a opressão, o desamparo, o sofrimento. De um lado, tudo; de outro, nada – ou quase tudo e quase nada, o que, na prática, dá no mesmo. As estatísticas comprovam que nosso mundo materializa antíteses. É um momento crítico em que nossa história nos coloca diante de um desafio do qual não podemos fugir: que fazer? Como proceder para o alento, a dignidade, a esperança, quem sabe, a possibilidade da libertação? Que postura assumir?
Para os que conseguiram dominar seu pessimismo, Shakespeare tem algo interessante a dizer pela boca de seu mais célebre personagem, Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para a alma: sofrer os dardos e setas de um destino cruel, ou pegar em armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo?”. O espírito desta indagação transcende o contexto imediato no qual nasceu e pode servir de ponto de partida para uma reflexão sobre a nossa conduta nos tempos atuais. Que é melhor? Resignar-se aos golpes do destino? Ou tentar superá-los? Sofrer pacientemente as condições dadas? Ou buscar o fim dos inúmeros conflitos que nos afligem? Numa palavra: é preferível ser, na prática, ativo ou passivo?
Muitas pessoas acreditam que o verdadeiro, o belo, o bom, consiste em levar uma vida pacata, distante de todo envolvimento prático com assuntos públicos. E, numa sociedade onde se tem o ser dividido entre público e privado, é o último quem invariavelmente conduz nossa vida prática. Circunscrita aos limites postos pelos interesses egoístas e incapaz de ir além, a prática se embota e se restringe ao imediato. A mente, por sua vez, alça vôo e atinge o geral e os assuntos concernentes à existência da coletividade. A mente torna-se ativa no mais pleno significado da palavra. E, para as calamidades que assolam o mundo, desenvolve, então, ricas explicações, teorias refinadas, as mais arrojadas racionalizações. E é essa assimetria em favor do mundo das idéias, segundo Hamlet, a razão de as desventuras humanas possuírem uma vida assim tão longa: “Pois, senão, quem suportaria os insultos e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder?”. Sofre-se na carne, no ser como um todo, mas a atividade se desenvolve única e exclusivamente no plano da idéia. Não há complementaridade entre as instâncias, há uma relação de conflito e um desequilíbrio em favor daquilo que gira em redor do pensamento. A vida torna-se contemplativa. Abre-se espaço, assim, para todo tipo de ideações: ciência, filosofia, moral, religião, arte, etc.
Não se quer dizer, com isso, que essas coisas sejam ruins em si mesmas. Talvez todas elas sejam necessárias em várias situações. Mas se a atividade prática se limita ao campo do privado, se ela se torna mero instrumento para as satisfações da mente, se ela se converte em meio e a mente em fim, então pode-se ter a certeza de que a opressão, a injustiça e o sofrimento humano vão continuar, indefinidamente. E a mente, por acolher para si toda a atividade, torna-se co-responsável pelas calamidades públicas. “E é assim que a consciência nos transforma em covardes, é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se debilita na pálida sombra do pensamento e é assim que as empreitadas de maior alento e importância, com semelhantes reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação” (Hamlet, ato III, cena I). Ciência, religião, moral, filosofia, todas as produções do pensamento em torno das quais passamos a viver, não são elas que criam ou dão vida ou libertam ou aprisionam as pessoas. As pessoas é que as criam, dão-lhes vida, libertam-nas ou as aprisionam.
É por essa razão que as situações em que o ser humano se encontra humilhado, escravizado, abandonado, desprezível, devem ser enfrentadas e suprimidas pelo próprio ser humano, através de ações. Forças que oprimem na prática devem ser abolidas, também, por forças práticas. Saudemos, portanto, Hamlet, e aprendamos com ele esse gesto de fogo.
por Demétrio Cherobini


criado por sheppa
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Comentário por Josh — 17.8.07 @ 2:07
Bélissimo texto.
Análise curta e grossa:
AÇÃO DIRETA.
Comentário por Poke — 17.8.07 @ 14:23
tá na hora da sÃntese!
Comentário por Pajeú — 31.8.07 @ 0:52
Só se tem liberdade, se se vive a liberdade. Só se tem sabedoria, se ela valida e é validada pela vida.
Só ama, amando. No banheiro, ou no buteco, fazemos dezenas de insurgências…mas quando ocorrerão estas, na prática?
BelÃssima análise de Hamelet. Confesso nuca ter atentado para este texto, nestas perspectivas.
Saúde, amigo.