Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

9.8.07

Cidade dos Motoboys: problemas e soluções

 

                                

A cidade de São Paulo cresceu muito e hoje mantém o status de “Cidade Global”, isso significa tecnologia avançada em telecomunicação, investimentos estrangeiros, em fim, competitividade frente ao mercado mundial. Agilidade e fluxo são palavras fundamentais em uma metrópole que pretende ser eficiente, a favor do capital, claro. E é por isso que ela é eficaz na segregação urbana e na exclusão. Este é, a grosso modo, o planejamento estratégico que garante espaços públicos voltados a uma minoria abastada. Deste crescimento desordenado surgiu o trânsito caótico.

Mas trânsito caótico onde agilidade e fluxo são necessários? Para resolver esta questão o mercado inventou o motoboy por ser rápido e eficiente no meio urbano. Problemas resolvidos? Só se forem os do mercado, pois os da saúde pública só pioraram: 2,8 motociclistas vítimas fatais de acidente de trânsito por dia na capital paulista, segundo o Hospital das Clínicas.

Estima-se que existam cerca de 180.000 motoboys em atividade, das mais de 488.000 motocicletas registradas em São Paulo. Muitos deles trabalhando em média 12 horas por dia, de segunda à segunda, sem registro, sem direitos, sem benefícios, geralmente ganhando R$5,50 por hora (o mesmo valor de 3 anos atrás!). É um novo tipo de operário para novos tempos: informalidade para quem não possui qualificação. Nessas ruins condições de trabalho também se encontram os camelôs, as atendentes de telemarketing e os seguranças privados.

A cidade agora depende do serviço dos motoboys. Mas alguma solução para a categoria está longe. É um problema social que vai se agravando enquanto a cidade cresce. E a organização dos motociclistas profissionais se faz cada vez mais necessária. Se fazem a cidade e sua economia fluírem, podem fazê-las pararem. São novos atores sociais fortes em cena, uma possível força política não vista desde os operários metalúrgicos dos anos 70. Melhores condições de trabalho é o mínimo que eles podem exigir.

 

por  R. Poke Ito

criado por sheppa    22:10 — Arquivado em: Sem categoria

Nó

Assim que me vi só
Ninguém mais podendo ver
Tomei a liberdade de afrouxar o nó
À gravata que sufoca o ser.

Já despido o paletó
Destilei a raiva tanta
De quem me obrigou, sem dó
Ao nó que atormenta a garganta.

Farto de rimar em ó
Na iminência de tornar-me violento
Chorei ao notar que só, sem paletó,
O nó na garganta ainda era um tormento.

 

Por Brancaleone

criado por sheppa    13:16 — Arquivado em: Sem categoria

7.8.07

Manifesto da Revolta Individual

MANIFESTO DA REVOLTA INDIVIDUAL

Fatos recentes: os EUA bombardeiam o Afeganistão, após o sangrento 11 de setembro, sob o pretexto de derrubar o regime Talibã. O Afeganistão já era um país de escombros, e os EUA contribuíram para requintar ainda mais o quadro de destruição e acrescentaram um novo ingrediente, a humilhação e a supressão da soberania do país. Detalhe: Osama Bin Laden continua foragido. 2003. Os EUA bombardeiam o Iraque, sob o pretexto de que o país ocultava armamento ilegal. Depõe o ditador iraquiano e mergulham o país numa situação de caos e guerrilha. Desrespeitam a soberania nacional iraquiana e praticam atos de tortura em suas prisões. Nenhum armamento ilegal foi encontrado.

Anúncio: Colin Powell declara que os EUA não podem aceitar a continuidade do regime socialista cubano e que devem interferir na transição do poder de Fidel a seu irmão Raul Castro.

Não quero fazer aqui um julgamento dos regimes atacados pelos EUA, tampouco uma defesa dos respectivos ditadores. Mas gostaria de saber quem, e quando, conferiu aos EUA a estrela de xerife global. Na era da famigerada globalização, do "ser humano on-line", assistimos ao estabelecimento de um império sem precedentes. O domínio discreto, silencioso e eficaz exercido pelas empresas transnacionais já não basta. Como não há mais controle, o avanço pode ser mais rápido, pode-se usar a força bruta novamente.

Enquanto isso, o mundo assiste aos fatos, aterrorizado com as cenas de violência e impotente ante a magnitude do poderio bélico e econômico vindo do hemisfério norte. Assustamo-nos também com os sangrentos atos terroristas, insensatos não só pela mortalidade que deflagram, mas também por se tornarem presas fáceis para os colecionadores de justificativas, os supostos guardiões da liberdade mundial. Cabe a pergunta: que liberdade? Talvez seja a liberdade de consumirmos à vontade Coca-Cola, utilizarmos freneticamente nossos celulares, substituí-los à próxima primavera, quando parecerem pré-históricos perto dos novos lançamentos japoneses, a liberdade de andarmos altivamente sobre um tênis Nike ou de vestirmos as coloridas camisetas da NBA. Talvez a liberdade de servirmos de mão-de-obra barata e de mercado consumidor para suas filiais. Imaginem, os milhões e milhões de muçulmanos, quando estiverem livres e felizes como nós. Imaginem Cuba, com todo o seu charme caribenho. Com suas belas negras, que paradisíaco bordel-cassino. Seria o maior e mais belo "resort" do mundo.

Recentemente, quebrei minha promessa de não comer mais no MacDonald’s e me fartei algumas vezes com BigMacs e Coca-Colas. Pensei: no final das contas, que diferença eu faço?

O tamanho da imbecilidade desse meu pensamento eu não sei medir com exatidão. Terá ele, assustadoramente, fundamento? Será a resignação o caminho que devo seguir? É realmente tentador, para aqueles que, como eu, flutuam entre o realismo e o romantismo, dormir mais confortavelmente nos braços aconchegantes do conformismo, ou entrar simplesmente num coma voluntário e niilista.

Por outro lado, insatisfeito, pensei, se é inegável o poder que a sociedade exerce sobre o indivíduo, o inverso não poderia ser verdadeiro? Se acharmos a outra ponta do novelo, não teremos, então, a possibilidade de seguir um outro caminho, pelo menos o caminho contrário? De certa forma, a sociedade não é apenas um superlativo do indivíduo? O que seria do Leviatã sem suas células? As células, é verdade, estarão sempre lá, mas um câncer é possível.

A partir desse pensamento, animo-me a agir. O poder do indivíduo, ainda que na sociedade globalizada, é considerável. Cada um possui uma certa autonomia de ação dentro de seu microcosmo. O necessário é escolher o que fazer dela. Deixar, simplesmente, a nossa identidade ser substituída? Permitir que a informática, o descartável, a vídeo-diversão tomem, sem resistência, nossa arte, nosso corpo, nosso espírito? Nossa beleza?

É fato, sim, que o mundo nunca foi um lugar justo. Sempre existiram dominadores, dominados, impérios de diversas caras, cores e ideologias. Inegável que os impérios sucumbem ao movimento dialético da História, e que nunca são substituídos pelo Éden. Mas, frente a essa triste realidade humana, o índivíduo, como agente histórico, pode, ao menos, escolher de que lado estar em sua época. Quais valores defender. Ou, então, pode ser conduzido, bem comportado, pelos que já fizeram sua opção.

Por falar nisso, George Bush afirmou, pouco tempo atrás, que quem não estivesse ao lado dos EUA estaria contra eles. Creio que a imparcialidade, diante de uma ameaça tão incisiva, não basta. Se nossos governos não podem assumir uma posição clara - e quando digo nossos, refiro-me não apenas ao governo brasileiro, mas também a todas as outras colônias econômico-culturais norte-americanas - , nós, os indivíduos, podemos.

Eu já fiz minha opção. Estou contra. Chega de circular com camisetas estampadas com dizeres em inglês, como uma bandeira americana ambulante. Chega de "fast-food", "just-in-time", chega de "off-price", "delivery", "show-room", "workshop", estou cansado e quero seguir outra direção. A minha direção. Ranzinza, talvez. Mas também chato, irritante, persistente. Se eu convencer um, já seremos dois. Em outros lugares, há mais gente ranzinza, chata, irritante, persistente. Se cada um deles convencer mais um, já seremos muitos.

 

Por Brancaleone

criado por sheppa    14:29 — Arquivado em: Sem categoria

2.8.07

O crepúsculo

O Crepúsculo

A tarde encontra a noite
Quase às escuras
É tarde e a gente se apressa
Para o início do próximo ato.

Tardio, meu sentimento corre
Quase dissipado em trevas
A noite desce seus véus
Cerra cortinas inevitáveis
E esconde as marcas no meu rosto.

Lembranças de um sol quase posto
Rastejam junto ao asfalto
Imagens refletidas nas janelas
Insinuam o que está por vir.

Ainda, numa tarde quase totalmente
Finda
O medo permanece ereto
Mais adiante, quieto num pedestal
Um santo de gesso observa sereno
A gênese do meu sonho.

   1998

Por Brancaleone

criado por sheppa    16:00 — Arquivado em: Sem categoria

« Posts mais novos
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://sheppadeingratu.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.