MANIFESTO DA REVOLTA INDIVIDUAL
Fatos recentes: os EUA bombardeiam o Afeganistão, após o sangrento 11 de setembro, sob o pretexto de derrubar o regime Talibã. O Afeganistão já era um país de escombros, e os EUA contribuíram para requintar ainda mais o quadro de destruição e acrescentaram um novo ingrediente, a humilhação e a supressão da soberania do país. Detalhe: Osama Bin Laden continua foragido. 2003. Os EUA bombardeiam o Iraque, sob o pretexto de que o país ocultava armamento ilegal. Depõe o ditador iraquiano e mergulham o país numa situação de caos e guerrilha. Desrespeitam a soberania nacional iraquiana e praticam atos de tortura em suas prisões. Nenhum armamento ilegal foi encontrado.
Anúncio: Colin Powell declara que os EUA não podem aceitar a continuidade do regime socialista cubano e que devem interferir na transição do poder de Fidel a seu irmão Raul Castro.
Não quero fazer aqui um julgamento dos regimes atacados pelos EUA, tampouco uma defesa dos respectivos ditadores. Mas gostaria de saber quem, e quando, conferiu aos EUA a estrela de xerife global. Na era da famigerada globalização, do "ser humano on-line", assistimos ao estabelecimento de um império sem precedentes. O domínio discreto, silencioso e eficaz exercido pelas empresas transnacionais já não basta. Como não há mais controle, o avanço pode ser mais rápido, pode-se usar a força bruta novamente.
Enquanto isso, o mundo assiste aos fatos, aterrorizado com as cenas de violência e impotente ante a magnitude do poderio bélico e econômico vindo do hemisfério norte. Assustamo-nos também com os sangrentos atos terroristas, insensatos não só pela mortalidade que deflagram, mas também por se tornarem presas fáceis para os colecionadores de justificativas, os supostos guardiões da liberdade mundial. Cabe a pergunta: que liberdade? Talvez seja a liberdade de consumirmos à vontade Coca-Cola, utilizarmos freneticamente nossos celulares, substituí-los à próxima primavera, quando parecerem pré-históricos perto dos novos lançamentos japoneses, a liberdade de andarmos altivamente sobre um tênis Nike ou de vestirmos as coloridas camisetas da NBA. Talvez a liberdade de servirmos de mão-de-obra barata e de mercado consumidor para suas filiais. Imaginem, os milhões e milhões de muçulmanos, quando estiverem livres e felizes como nós. Imaginem Cuba, com todo o seu charme caribenho. Com suas belas negras, que paradisíaco bordel-cassino. Seria o maior e mais belo "resort" do mundo.
Recentemente, quebrei minha promessa de não comer mais no MacDonald’s e me fartei algumas vezes com BigMacs e Coca-Colas. Pensei: no final das contas, que diferença eu faço?
O tamanho da imbecilidade desse meu pensamento eu não sei medir com exatidão. Terá ele, assustadoramente, fundamento? Será a resignação o caminho que devo seguir? É realmente tentador, para aqueles que, como eu, flutuam entre o realismo e o romantismo, dormir mais confortavelmente nos braços aconchegantes do conformismo, ou entrar simplesmente num coma voluntário e niilista.
Por outro lado, insatisfeito, pensei, se é inegável o poder que a sociedade exerce sobre o indivíduo, o inverso não poderia ser verdadeiro? Se acharmos a outra ponta do novelo, não teremos, então, a possibilidade de seguir um outro caminho, pelo menos o caminho contrário? De certa forma, a sociedade não é apenas um superlativo do indivíduo? O que seria do Leviatã sem suas células? As células, é verdade, estarão sempre lá, mas um câncer é possível.
A partir desse pensamento, animo-me a agir. O poder do indivíduo, ainda que na sociedade globalizada, é considerável. Cada um possui uma certa autonomia de ação dentro de seu microcosmo. O necessário é escolher o que fazer dela. Deixar, simplesmente, a nossa identidade ser substituída? Permitir que a informática, o descartável, a vídeo-diversão tomem, sem resistência, nossa arte, nosso corpo, nosso espírito? Nossa beleza?
É fato, sim, que o mundo nunca foi um lugar justo. Sempre existiram dominadores, dominados, impérios de diversas caras, cores e ideologias. Inegável que os impérios sucumbem ao movimento dialético da História, e que nunca são substituídos pelo Éden. Mas, frente a essa triste realidade humana, o índivíduo, como agente histórico, pode, ao menos, escolher de que lado estar em sua época. Quais valores defender. Ou, então, pode ser conduzido, bem comportado, pelos que já fizeram sua opção.
Por falar nisso, George Bush afirmou, pouco tempo atrás, que quem não estivesse ao lado dos EUA estaria contra eles. Creio que a imparcialidade, diante de uma ameaça tão incisiva, não basta. Se nossos governos não podem assumir uma posição clara - e quando digo nossos, refiro-me não apenas ao governo brasileiro, mas também a todas as outras colônias econômico-culturais norte-americanas - , nós, os indivíduos, podemos.
Eu já fiz minha opção. Estou contra. Chega de circular com camisetas estampadas com dizeres em inglês, como uma bandeira americana ambulante. Chega de "fast-food", "just-in-time", chega de "off-price", "delivery", "show-room", "workshop", estou cansado e quero seguir outra direção. A minha direção. Ranzinza, talvez. Mas também chato, irritante, persistente. Se eu convencer um, já seremos dois. Em outros lugares, há mais gente ranzinza, chata, irritante, persistente. Se cada um deles convencer mais um, já seremos muitos.
Por Brancaleone