24.10.07
Mais uma reflexão sobre o campo…
A descultura do açúcar
(Por Pajeú S.)
A história é mais ou menos assim: em 1532, o colonizador Martim Afonso de Souza chegou a São Vicente, trazendo consigo algumas mudas de cana-de-açúcar. Consciente, ou não, Martim Afonso de Souza iniciou nas terras Brasil, suntuosa colônia Portuguesa na América, o cultivo do que seria o principal produto do Império Português na América. O açúcar plantado e manufaturado por senhores de engenho do nordeste brasileiro, cumpria a dupla função – a de ocupar as terras brasileiras e gerar um monopólio que sustentava a coroa e a aristocracia mercantil portuguesas.
A cultura da cana tinha como características principais a monocultura, o uso de mão-de-obra escrava, o latifúndio (enormes porções de terras) e a produção exclusiva para o mercado externo. Está aí, segundo o sociólogo Gilberto Freire, a base da sociedade brasileira – patriarcal, escravocrata, senhorial.
É evidente que, apesar dos pesares, a cultura, os costumes e as instituições brasileiras, começaram a se forjar a partir desta base. Outras monoculturas, escravistas e exportadoras desenvolveram-se por aqui até os fins do Império dos Pedros: o algodão, o cacau, o café. Mesmo após a abolição da escravidão e da proclamação da República, o modelo não se alterou substancialmente: saíram os escravos, mas entraram trabalhadores assalariados, colonos, bóias-frias, rendeiros, meeiros…ou seja mão-de-obra livre, explorada quase como escravos.
Pequena alteração se deu entre os anos 50 e 80, quando mais ou menos 50% das exportações brasileiras eram de produtos industrializados. Hoje, esse número retrocede: a monocultura, hoje chamada com certo ar de sofisticação de agrobusiness (ou agro-negócio), volta a ser a principal produtora de bens exportados pelo colosso Brasil – sua vocação agrícola, não? O Brasil, a partir do “Pró-álcool” dos militares, da expansão da fronteira agrícola durante o mesmo período e, sobretudo, com o neoliberalismo global (a partir dos anos 1990) parece querer reafirmar esta sua vocação – a de colônia, produtora de commodities (produtos primários – matéria prima) para o mercado internacional. É soja, é gado, é minério, é madeira, é papel e por aí vai.
A coisa tornou-se ainda mais esquizofrênica com a recente campanha e corrida estratégica pela produção de fontes de energia que sejam “limpas”: o álcool e o tal de biodísel. O etanol produzido com a cana-de-açúcar gera renda e tecnologia de ponta para o Brasil. Polui menos que os hidrocarbonetos (gasolina e óleo diesel) e sensivelmente mais barato. Sem contar que se trata de uma poderosa commoditie. Bom? Nem tanto!
A produção de vegetais (principalmente da cana-de-açúcar) com os quais se pode fazer o tal do biocombustível, limpo e barato tem de ser vista com um olhar um pouco mais crítico e apurado. Em primeiro lugar porque reafirma a posse das nossas melhores terras por grandes latifundiários e mesmo por empresas estrangeiras (que ao contrário do que se pensa, nem sempre compraram honestamente tal gleba). Expulsa do campo os trabalhadores e os pequenos proprietários de suas terras, por não conseguirem concorrer com super-produções e com o maquinário dos agro-negociantes. Explora-se, vergonhosamente, o trabalhador rural. Reitera-se, com isso, a grande desigualdade social.
Em segundo lugar o solo, a água e o ar são prejudicados pelas queimadas, pelo desgaste da monocultura, pelo uso de insumos químicos. Florestas e áreas de preservação ambiental são desmatados. Produtos e gêneros de primeira necessidade para nosso povo, deixam de ser produzidos. Especula-se sobre a terra.
Sem contar um outro dado, pouco estudado: soma-se a todas essas mazelas, a perda de identidade cultural que vêm assomando o interior paulista (região que concentra a maior parte da produção de álcool combustível). Os paulistas,há muito vêm fazendo de suas ótimas terras, seleiros para o sedento mercado externo: café, gado, laranja. Com isso importamos modelos de produção de “primeiro mundo” e, juntamente com tais modelos, hábitos, costumes, músicas etc. Um exemplo disso? A medonha cultura contry que sufoca há anos a legítima cultura caipira, cabocla, peã. Outro exemplo: os hábitos de consumo das burguesias locais, miqueando os das grandes cidades, que por sua vez macaqueiam as tendências de Nova Iorque, Paris, Londres, Milão.
Sob o escuro céu das queimadas de inverno, cidades assistem o desaparecimento de suas identidades, deixam de plantar e criar o que tradicionalmente sempre se produziu por ali. Deixam o pequeno roceiro perdido e cercado de modernidade e fumaça. Queimam seus habitantes, junto com os talos das canas. Reforçam a vocação colonial – em amplo sentido. É a descultura do açúcar, da cana, do álcool e de seus similares.


criado por sheppa
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