Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

27.2.08

Contrafogos

Entre bombas & suicídios atravesso o paraíso
Corroído com meus pares, tão doente & sem juízo
Sacrifico meus amores pela vida de outras vidas
Nada detém o meu cheiro nem o gosto em minha boca

O acordo assassino entre fardas & gravatas
Magistrados & gavetas vem pulsando na TV
Comemoram com canetas chafurdando uns nos outros
Dividindo as mesmas putas da vitória tão maldita

Pela outra boca, a suja, recomeça o genocídio
Antes os negros & os índios & depois os parecidos
É o trabalho & que trabalho, costurar a carne aberta
Receber pela matança, o progresso e o deserto

Estar certo que o futuro não lhes guarda nenhum risco
Pois um porco afaga o outro mesmo em frente ao abismo
Trago no peito o desacato como um sonho nordestino
E meu cuspe nesse rosto é só o início do que eu sinto.

d.B.Cooper

criado por sheppa    8:42 — Arquivado em: Sem categoria

25.2.08

A Cidade, os Automóveis e a Modernidade

                              

Em meados deste mês (Fevereiro de 2008), a frota de veículos registrados na cidade de São Paulo atingiu os incríveis 6 milhões. Assim, o caos do trânsito se agrava a cada dia, na verdade com 800 veículos por dia, com mortos e feridos na guerra urbana por espaço, que se compara apenas à violência das guerras civis e entre nações. Mas se engana quem pensa que elevados índices de violência no trânsito paulistano é um fato recente. Desde o primeiro automóvel importado por Alberto Santos Dumont em 1900, a história vem sendo marcada com sangue e velocidade.

Produto da II Revolução Industrial, ou Revolução Tecnológica-Científica, o automóvel passou a ser um símbolo de uma nova era, a era da civilização ocidental. O automóvel aparece trazendo consigo os ideais de modernização e avanço tecnológico, mas também criou novas formas de relacionamento entre o homem e o espaço ao seu redor e os homens entre si, transformou o comportamento nas ruas e a relação das pessoas com o meio urbano. Liberdade de locomoção e velocidade foram palavras disseminadas por liberais progressistas que resultavam em sensações de poder para os motoristas.

Apesar de agravar o conflito por espaço, os automóveis nunca deixaram de exercer um forte fascínio sobre as mais diferentes classes sociais. Com ideais de poder e liberdade, o automóvel foi peça fundamental para o processo de aceleração do cotidiano da sociedade capitalista. Não se trata de apenas um objeto da história, mas também da condição de ator, agente transformador ativo e passivo em um problema endêmico da cidade de São Paulo.

Sobre este tema, indico a leitura do livro “A Modernidade Sobre Rodas: tecnologia automotiva, cultura e sociedade” de Marco Antônio Cornacioni Sávio, muito interessante para quem é da área da História, das Ciências Sociais e do Urbanismo.

Por R. Poke Ito

criado por sheppa    16:39 — Arquivado em: Sem categoria

20.2.08

O outono do comandante

 

Última terça, 19 de fevereiro de 2008 entrou para História. O “eterno” comandante da Revolução Cubana, o Comandante em Chefe do Estado Cubano formado após o 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro Ruz, deixa o posto definitivamente. Mantendo uma inegável influência política dentro e fora de Cuba, o comandante passa de vez o bastão. Raúl Castro Ruz, um dos quatro nomes fortes da Revolução em Sierra Maestra (ao lado de Fidel, Che Guevara e Camilo Cienfuegos), militante do Partido Comunista Cubano de primeira ordem esta à frente do comando da Ilha desde a metade de 2006, quando o comandante foi submetido a uma difícil cirurgia e seu Estado de saúde começou a piorar.

Cabem, neste momento, duas reflexões: qual a importância de Fidel para História e o qual o futuro da Ilha Caribenha?

Os detratores de Castro, de seu governo, da Revolução Popular de 1959 apressam-se em pedir a cabeça de Castro, ou em salivar imaginando o botim a ser dividido – como verdadeiros urubus rondando o corpo ainda vivo de Fidel e da pulsante Ilha.

Não vou me apressar aqui em fazer especulações como as que a mídia, sobretudo aquela abertamente anti-castrista, vem fazendo. Quero com esse texto compartilhar minha humilde reflexão, apenas.

Fidel Castro é, indiscutivelmente uma das figuras mais importantes do século XX. Com uma brilhante liderança, sobriedade política, um intelecto formidável e coragem, muita coragem, Fidel liderou a Revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, cujo governo era apoiado e sustentado pelos EUA.

Suas atitudes à frente do comando do novo governo revolucionário foram aos poucos assumindo ares de socialista, o que desagradou os EUA e, em tempos de Guerra Fria, conquistou o apoio da antiga URSS.

Como toda experiência de implantação do socialismo, o caso cubano não deixou de ter seus deslizes autoritários. Seu governo, a exemplo de seus padrinhos soviéticos, de seus parceiros chineses, norte-coreanos e vietnamitas fora controlado com exclusividade pelo Partido Comunista, único e inviolável. Perseguições, prisões arbitrárias e liberdades individuais precárias. Economicamente, a diminuta riqueza cubana “dividida”, partilhada pela população da Ilha é insuficiente para garantir fartura para seus habitantes. Milhares e milhares de cubanos “prejudicados” pela revolução, ou contrários ao regime implantado fugiram para o vizinho rico ao longo deste quase meio século.
Em contrapartida, os grandes latifúndios, refinarias de petróleo e empresas que eram propriedades de empresas estrangeiras, notadamente estadunidenses, foram estatizadas. Uma ampla reforma agrária fora feita. Uma campanha maciça de educação e de erradicação do analfabetismo fora executada. O sistema de saúde é referência mundial. Nos esportes e nas artes Cuba também se destaca. E não obstante a terrível carestia que acomete a população (não nos esqueçamos que além da Ilha ter escassos recursos naturais, vive desde 1962 sob um embargo econômico estadunidense), o povo cubano é um povo feliz e orgulhoso de sua revolução.

O que acontecerá a partir de agora? Não sei. Que mudanças podem ocorrer? Talvez não muitas, ou não imediatas. Raúl segue a mesma linha de seu irmão mais velho e o comandante de 81 anos, mesmo fora do comando do Estado, continuará sendo o mentor político da nação. O que é desejável para Cuba, para o povo cubano? Não tenho certeza, mas não quero pensar que seja a implementação deste capitalismo selvagem apregoado e defendido pelos EUA. Penso que cabe ao povo cubano e somente a ele decidir. De uma coisa estou certo: esse povo que se acostumou a andar de cabeça erguida, que se orgulha de sua educação, de sua cultura e de sua saúde pública saberá ser crítico às tentações, das facilidades do mundo capitalista. A noção política e o legado revolucionário desse povo o farão refletir sobre qual democracia lhe é desejável e, acredito, que esta não seja a democracia liberal-burguesa.

O povo cubano reconhece suas conquistas e sabe entender seu papel histórico. Cuba se lembra que fora, outrora, um casino para turistas gringos, um grande puteiro a céu aberto, paraíso de mafiosos e empresários estadunidenses. Portanto, para aqueles que dão o socialismo cubano como morto, para aqueles que não vêem a hora de pegar a lancha e tomar o caminho contrário rumo à casa que abandonou, para aqueles que não vêem a hora de dividir o espólio e privatizar tudo o que pode em nome da democracia e da liberdade…cautela. Não se deve desdenhar do cubano.

Pajeú S.

criado por sheppa    16:52 — Arquivado em: Sem categoria

13.2.08

senilidades do Abacuc

Carta a um amigo

Meu caro amigo, costuma-se dizer que aos velhos tudo é permitido. Baseado nessa premissa, ouso fazer-te esta tardia confissão:
Crenças religiosas à parte, os kardecistas devem ter razão, ao menos quando dizem que esta vida é uma espécie de estágio probatório. Nós, por exemplo, como fazem os alunos gazeteiros, inventamos as mais criativas desculpas para camuflar nossa imperdoável omissão. Chegamos às vezes a elaborar uma fantasia heróica, para depois dormirmos o sono dos justos (as grandes questões podem ser tratadas de forma retórica; já as pequenas requerem uma ação prática, essa é uma dolorosa verdade). Porém, como aos velhos sempre cai o pano, só nos resta um paliativo: fazer uma confissão pública de nossos fracassos.
Quantas vezes, meu bom amigo, nos juntamos ao povo na rua para defender o direito das massas (quando a única massa que realmente conhecemos é aquela que degustamos aos domingos), sem termos nunca sido capazes de abraçar com afeto sincero a massa corpórea de um ente querido, esta, sim, próxima, verdadeira, palpável. Outras tantas vezes, meu amigo, sentados diante da TV, da tela de um cinema, ou, o que ainda é pior, diante de um copo de cerveja, discursando numa távola redonda para cavaleiros de triste figura, assim como nós, exigimos de imediato a cabeça de todos os tiranos! E era tão reconfortante bradar entre o tilintar das taças e os gritos de bravo contra toda a injustiça, contra todo o despotismo, contra toda… E as bandeiras, meu amigo?! Quantas nós estendemos sob a mesma janela onde lançamos o nosso arroto de saciedade e fumamos o merecido cigarro. Bandeiras contra a discriminação sócio-racial, o trabalho infantil, a fome; sem, todavia, termos sido capazes de saciar a fome do indigente que enfeiava nossa esquina, muito menos de tentar descobrir qual era de fato sua fome mais urgente. Ah, meu bom amigo, quantas vezes nos procuramos apenas para cumprir um dever social sem ouvir do outro sua pequena queixa, ou seu grito de angústia; sem dar atenção a suas dores ocultas ou a seus apelos silenciosos. E depois nos retiramos conscientes do dever cumprido, pois a ignorância é sempre mais leve e mais econômica. Quem sabe se nos ouvíssemos surgisse a obrigação de trocarmos ajudas, de nos desfazermos de alguma quantia (ah, pobres economias!), ou de cedermos o ombro para uma lágrima (oh, pobre sobriedade!). Quem sabe se nos ouvíssemos, acabássemos por enxergar nossa pequenez e nos obrigássemos a romper com nosso ceticismo estético e a assumir a nossa medíocre condição humana; adotando, embora sejamos incréus, uma atitude das mais cristãs: o amor ao próximo que está bem próximo, ao alcance de um gesto.

criado por sheppa    17:27 — Arquivado em: Sem categoria

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