Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

13.2.08

senilidades do Abacuc

Carta a um amigo

Meu caro amigo, costuma-se dizer que aos velhos tudo é permitido. Baseado nessa premissa, ouso fazer-te esta tardia confissão:
Crenças religiosas à parte, os kardecistas devem ter razão, ao menos quando dizem que esta vida é uma espécie de estágio probatório. Nós, por exemplo, como fazem os alunos gazeteiros, inventamos as mais criativas desculpas para camuflar nossa imperdoável omissão. Chegamos às vezes a elaborar uma fantasia heróica, para depois dormirmos o sono dos justos (as grandes questões podem ser tratadas de forma retórica; já as pequenas requerem uma ação prática, essa é uma dolorosa verdade). Porém, como aos velhos sempre cai o pano, só nos resta um paliativo: fazer uma confissão pública de nossos fracassos.
Quantas vezes, meu bom amigo, nos juntamos ao povo na rua para defender o direito das massas (quando a única massa que realmente conhecemos é aquela que degustamos aos domingos), sem termos nunca sido capazes de abraçar com afeto sincero a massa corpórea de um ente querido, esta, sim, próxima, verdadeira, palpável. Outras tantas vezes, meu amigo, sentados diante da TV, da tela de um cinema, ou, o que ainda é pior, diante de um copo de cerveja, discursando numa távola redonda para cavaleiros de triste figura, assim como nós, exigimos de imediato a cabeça de todos os tiranos! E era tão reconfortante bradar entre o tilintar das taças e os gritos de bravo contra toda a injustiça, contra todo o despotismo, contra toda… E as bandeiras, meu amigo?! Quantas nós estendemos sob a mesma janela onde lançamos o nosso arroto de saciedade e fumamos o merecido cigarro. Bandeiras contra a discriminação sócio-racial, o trabalho infantil, a fome; sem, todavia, termos sido capazes de saciar a fome do indigente que enfeiava nossa esquina, muito menos de tentar descobrir qual era de fato sua fome mais urgente. Ah, meu bom amigo, quantas vezes nos procuramos apenas para cumprir um dever social sem ouvir do outro sua pequena queixa, ou seu grito de angústia; sem dar atenção a suas dores ocultas ou a seus apelos silenciosos. E depois nos retiramos conscientes do dever cumprido, pois a ignorância é sempre mais leve e mais econômica. Quem sabe se nos ouvíssemos surgisse a obrigação de trocarmos ajudas, de nos desfazermos de alguma quantia (ah, pobres economias!), ou de cedermos o ombro para uma lágrima (oh, pobre sobriedade!). Quem sabe se nos ouvíssemos, acabássemos por enxergar nossa pequenez e nos obrigássemos a romper com nosso ceticismo estético e a assumir a nossa medíocre condição humana; adotando, embora sejamos incréus, uma atitude das mais cristãs: o amor ao próximo que está bem próximo, ao alcance de um gesto.

criado por sheppa    17:27 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Brancaleone — 14.2.08 @ 17:45

    Bello, vechio!!!

  2. Comentário por Pajeú — 27.2.08 @ 20:03

    Cara Vechio, com muita consideração leio tais confissões, tais reflexões. Falas de uma realidade presente em muitos de nossos corações…e que no entanto é tão difícil de ser diagnosticada - ou aceita!!!

    Grande abraço.

  3. Comentário por Pajeú — 27.2.08 @ 20:05

    Errata: “Caro Vechio” e não “cara”…

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