Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

20.2.08

O outono do comandante

 

Última terça, 19 de fevereiro de 2008 entrou para História. O “eterno” comandante da Revolução Cubana, o Comandante em Chefe do Estado Cubano formado após o 1º de janeiro de 1959, Fidel Castro Ruz, deixa o posto definitivamente. Mantendo uma inegável influência política dentro e fora de Cuba, o comandante passa de vez o bastão. Raúl Castro Ruz, um dos quatro nomes fortes da Revolução em Sierra Maestra (ao lado de Fidel, Che Guevara e Camilo Cienfuegos), militante do Partido Comunista Cubano de primeira ordem esta à frente do comando da Ilha desde a metade de 2006, quando o comandante foi submetido a uma difícil cirurgia e seu Estado de saúde começou a piorar.

Cabem, neste momento, duas reflexões: qual a importância de Fidel para História e o qual o futuro da Ilha Caribenha?

Os detratores de Castro, de seu governo, da Revolução Popular de 1959 apressam-se em pedir a cabeça de Castro, ou em salivar imaginando o botim a ser dividido – como verdadeiros urubus rondando o corpo ainda vivo de Fidel e da pulsante Ilha.

Não vou me apressar aqui em fazer especulações como as que a mídia, sobretudo aquela abertamente anti-castrista, vem fazendo. Quero com esse texto compartilhar minha humilde reflexão, apenas.

Fidel Castro é, indiscutivelmente uma das figuras mais importantes do século XX. Com uma brilhante liderança, sobriedade política, um intelecto formidável e coragem, muita coragem, Fidel liderou a Revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, cujo governo era apoiado e sustentado pelos EUA.

Suas atitudes à frente do comando do novo governo revolucionário foram aos poucos assumindo ares de socialista, o que desagradou os EUA e, em tempos de Guerra Fria, conquistou o apoio da antiga URSS.

Como toda experiência de implantação do socialismo, o caso cubano não deixou de ter seus deslizes autoritários. Seu governo, a exemplo de seus padrinhos soviéticos, de seus parceiros chineses, norte-coreanos e vietnamitas fora controlado com exclusividade pelo Partido Comunista, único e inviolável. Perseguições, prisões arbitrárias e liberdades individuais precárias. Economicamente, a diminuta riqueza cubana “dividida”, partilhada pela população da Ilha é insuficiente para garantir fartura para seus habitantes. Milhares e milhares de cubanos “prejudicados” pela revolução, ou contrários ao regime implantado fugiram para o vizinho rico ao longo deste quase meio século.
Em contrapartida, os grandes latifúndios, refinarias de petróleo e empresas que eram propriedades de empresas estrangeiras, notadamente estadunidenses, foram estatizadas. Uma ampla reforma agrária fora feita. Uma campanha maciça de educação e de erradicação do analfabetismo fora executada. O sistema de saúde é referência mundial. Nos esportes e nas artes Cuba também se destaca. E não obstante a terrível carestia que acomete a população (não nos esqueçamos que além da Ilha ter escassos recursos naturais, vive desde 1962 sob um embargo econômico estadunidense), o povo cubano é um povo feliz e orgulhoso de sua revolução.

O que acontecerá a partir de agora? Não sei. Que mudanças podem ocorrer? Talvez não muitas, ou não imediatas. Raúl segue a mesma linha de seu irmão mais velho e o comandante de 81 anos, mesmo fora do comando do Estado, continuará sendo o mentor político da nação. O que é desejável para Cuba, para o povo cubano? Não tenho certeza, mas não quero pensar que seja a implementação deste capitalismo selvagem apregoado e defendido pelos EUA. Penso que cabe ao povo cubano e somente a ele decidir. De uma coisa estou certo: esse povo que se acostumou a andar de cabeça erguida, que se orgulha de sua educação, de sua cultura e de sua saúde pública saberá ser crítico às tentações, das facilidades do mundo capitalista. A noção política e o legado revolucionário desse povo o farão refletir sobre qual democracia lhe é desejável e, acredito, que esta não seja a democracia liberal-burguesa.

O povo cubano reconhece suas conquistas e sabe entender seu papel histórico. Cuba se lembra que fora, outrora, um casino para turistas gringos, um grande puteiro a céu aberto, paraíso de mafiosos e empresários estadunidenses. Portanto, para aqueles que dão o socialismo cubano como morto, para aqueles que não vêem a hora de pegar a lancha e tomar o caminho contrário rumo à casa que abandonou, para aqueles que não vêem a hora de dividir o espólio e privatizar tudo o que pode em nome da democracia e da liberdade…cautela. Não se deve desdenhar do cubano.

Pajeú S.

criado por sheppa    16:52 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Gabriela — 20.2.08 @ 23:57

    Cuba se mostrou forte até agora. Vamos ver no que vai dar, mas como você, acredito na decisão do povo Cubano que eles melhor do que ninguem devem saber do que precisam.
    A palavra “liberdade” capitalista é hipócrita demais, é tudo muito mascarado, mas sempre sabemos o que tem por tras da máscara.
    Até mais!

  2. Comentário por Poke — 22.2.08 @ 22:58

    Pajeú! ótimo texto!

  3. Comentário por Décio Pitinini — 23.2.08 @ 12:59

    Ele já deve ter comido muita criancinha.

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