31.3.08
As grandes cidades do país vêm se direcionando à modernização e deixando para trás a característica industrial. Estamos na era do fluxo informacional, das telecomunicações a serviço das grandes empresas. Aliás, serviços são o que essas empresas dizem prestar. Um exemplo é o Grupo Atento, líder em diversos países na área do chamado contact center, e que no Brasil tem uma presença marcante por estar instalada em diversas capitais atuando no setor de telemarketing para outras instituições.
A maioria dos teleoperadores contratados por empresas como a Atento são mulheres de baixa renda e qualificação, tendo em vista a docilidade e subserviência. Isso porque a área de serviços herdou a pressão por produtividade dos tempos industriais: o ritmo acelerado visando o maior lucro e menor custo em condições precárias e estressantes. E a degradação das condições de trabalho não param por aí: nessas empresas também se promove a competição entre operadores e entre grupos de operadores para obtenção de um ganho pequeno ao atingir uma pré-determinada meta. Essas medidas fazem do trabalhador de telemarketing um agente muito mais individualizado, despolitizado e dócil, de forma que nem o sindicato tem força política.
A falta de oportunidade de trabalho para jovens de baixa renda e com baixa qualificação profissional agrava esse cenário. O setor de serviços é o único que emprega de forma consolidada os jovens nessas condições – além dos operadores de telemarketing temos os seguranças privados e os motoboys nas grandes cidades, sem contar a empregabilidade do crime. E são todos empregos sem perspectivas profissionais, são apenas vias de empregos mais ou menos estáveis.
O desemprego e a promoção da competição favorecem a tendência de despolitização dos operadores de telemarketing, que não conseguiram manter uma coesão de classe como a dos antigos operários. É uma tendência preocupante: na medida em que o nível de poder e opressão que as empresas atuam sobre os trabalhadores aumenta sem limite, tornando as condições de trabalho em níveis de degradação física e mental comparado até ao dos trabalhadores londrinos do século XIX.
Essa realidade precisa ser mudada, mas ela vai continuar enquanto a pressão do mercado informacional mundial existir, e os esmagados pela pressão continuarão sendo os trabalhadores, os operadores, os nossos novos proletários. E os que vão continuar ganhando serão os mesmos. Uma história velha com mais uma página e uma lesão por esforço repetitivo.
Por R. Poke Ito
13.3.08
São Paulo – Reforma Urbana e a mediocridade no debate.
A maior cidade do Brasil está nas manchetes da grande mídia novamente não pela sua grandeza, mas por sua obesidade mórbida.
As notícias sobre a violência urbana deram espaço a uma questão que há tempos enlouquece os paulistanos: o trânsito. Mesmo que os crimes não tenham parado, a imprensa resolveu que a bola da vez na cidade é a seguida quebra de recordes de congestionamento. Todos ocorridos nos últimos 60 dias.
Seguindo a lógica do pensamento burguês da elite que também alegra a classe média paulistana conservadora e aterrorizada, as principais redes de TV da cidade (Globo, Record, SBT, Bandeirantes) chamam a atenção para o caos em que se transformou Sampa com seus 12 milhões de habitantes e 6 milhões de carros.
Entrevistam motoristas, motociclistas, técnicos de trânsitos, secretários municipais e todos fazem o mesmo discurso: não há solução de curto prazo, é preciso proibir a circulação de caminhões nas ruas, entrar em funcionamento o rodoanel e cobrar pedágio urbano para financiar obras do metrô. Alguns entrevistados chegam até citar a questão do transporte público, porém de forma displicente e enfadonha.
Mas a realidade total dos fatos não é bem essa, como já poderíamos esperar. Os movimentos sociais e especialistas que estudam e debatem a reforma urbana não estão sendo ouvidos mais uma vez. Pois isso não interessa para quem “divulga” informações.
Dentro do conceito dos movimentos e especialistas da reforma urbana o buraco (que nem é do metrô) é muito mais em baixo.
Primeiro é preciso fazer uma avaliação de como se movimenta a cidade. Onde estão seus bairros mais populosos, onde estão os maiores centros de trabalho e a partir daí entender como a população se locomove e com qual meio de transporte. É claro que esses estudiosos já possuem esses dados, bem como a prefeitura e o governo do Estado devem ter também. Porém a maneira de se usar esses dados é que faz a diferença.
De fato, o investimento no transporte público é há tempos muito pouco e atrasado. Mas não é só isso. Os investimentos também dependem de políticas públicas que busquem diálogo com a população e com os movimentos organizados para então direcionar as ações que envolvam o transporte público coletivo em favor do usuário e não dos empresários que lucram com esse direito.
Nos últimos anos vimos a degradação total do sistema de ônibus da capital culminando no final de 2007 com o corte de várias linhas no extremo sul da cidade onde a população de periferia depende exclusivamente de ônibus para trabalhar, estudar e lazer. Justamente nessas regiões aconteceram recentemente vários protestos, com queima de ônibus, apedrejamentos e fechamento de ruas. Todos esses protestos organizados (ou não) de forma autônoma pelas pessoas. Sem a coordenação tradicional da esquerda nessas ocasiões. Sinal de que algo está mudando também nas ações populares e que a esquerda está cada vez mais longe de resolver sua crise interna.
Além da falta de controle das políticas impostas pelas empresas de ônibus nós temos também um crescimento populacional cada vez mais desorganizado e um possível colapso no metrô. Tradicional orgulho dos paulistanos, o metrô teve quatro panes consecutivas em 18 dias durante os meses de janeiro e fevereiro e a ampliação e construção de novas linhas não responde a necessidade da maioria da população. E ainda as tentativas do Estado em privatizar linhas e a desestrutura do sindicato aliados a crescente exploração imobiliária que vive São Paulo faz com que a luta por esse transporte fique voltada apenas para a questão salarial. O que na verdade é muito cômodo para o governo, já que exclui o mesmo de responder por um projeto para a cidade.
Uma maravilha imobiliária e a cidade para poucos.
Que a cidade é mesmo projetada para que poucos tenham acesso a ela não há dúvidas. Transporte coletivo deficiente e extremamente caro e revitalização do centro expandido de São Paulo são como um câncer desenfreado na vida do morador desse planalto.
A capital do estado nunca esteve como agora. Um verdadeiro canteiro de obras para prédios de apartamentos de classe média alta com reportagem paga por construtoras e imobiliárias na “Veja São Paulo” onde a revista inteira foi feita sobre as novas construções da cidade e seus moradores sofisticados, tendo entre os personagens o próprio prefeito Gilberto Kassab.
Do outro lado dos trilhos a maior parte da população segue soterrada nas periferias cada vez mais afastadas do centro com cada vez menos infra-estrutura ou planejamento.
Com a acentuada queda do poder aquisitivo da população a partir da segunda metade da década de 90 ocasionada principalmente pelo fechamento de grandes industrias na capital e a desvalorização do Real, o centro da cidade foi transformado. Os moradores de ruas que não conseguiam mais espaço nem nas favelas afastadas começaram a se amontoar em praças públicas disputando espaço com vendedores ambulantes que perderam seus empregos formais na industria.
Sem uma política habitacional séria da administração pública com propostas de re-ocupação dos prédios abandonados do centro e não apenas a construção de conjuntos habitacionais de gesso em locais afastados, os movimentos sociais como o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC) organizaram a população de rua em ocupações urbanas para chamarem a atenção da mídia para a questão. Um grande número de imóveis desocupados e o déficit habitacional da cidade menor que o número de vagas para moradia oferecido nesses imóveis.
Mesmo com a pressão dos movimentos sociais a força da repressão do Estado contra esse tipo de ação conseguiu na maioria das vezes a reintegração de posse dos prédios abandonados em favor dos proprietários, mesmo que em sua grande maioria os imóveis estejam com enormes dívidas de impostos atrasados.
Portanto com essa nova “revitalização” da região central, que nada mais é do que um novo afastamento da miséria, a prefeitura cria um círculo vicioso insuportável: a super lotação dos ônibus e lotações que deixam os bairros mais afastados em direção ao centro.
Essa super lotação dos coletivos, a falta de linhas de trens/metrôs e o alto custo do transporte público ajudou na estratégia das montadoras e revendedoras de automóveis na criação de inúmeras promoções e facilidades para a classe média animada com a estabilidade econômica dos últimos anos na compra de carros novos.
Junto a esse novo mercado de carros “populares” a elite paulistana encontrou também uma boa saída para furar o rodízio de carros, essas famílias agora chegam a possuir até quatro carros na garagem.
Todos esses fatores juntos ajudaram na formação desse monstro chamado trânsito.
O debate imposto pela mídia se limita a uma só questão. A população que antes podia simplesmente comprar carro e chegar em qualquer lugar da cidade hoje tem problemas de circulação e perde horas da sua vida produzindo poluentes no tráfego impossível da cidade. O que antes era um problema da população mais pobre que sempre ficou horas esperando por um ônibus que não nunca chegou agora atravessa a rua e imobiliza os motorizados. É o acesso à cidade dificultado para quem sempre o teve e isso gera uma crise dentro da própria política de exclusão social do Estado burguês.
Soluções capitalistas
Mas a cidade não pode parar.
Então o sistema capitalista se ajeita e encontra nos Motoboys uma maneira do seu dinheiro “rodar” a cidade com pouco custo. Explora-se, portanto o jovem desempregado. Contrata-se sem critérios, sem benefícios e com salários baixíssimos mas abre-se uma válvula de escape para quem não tinha mais como sobreviver. A cidade lota-se de motos. Novas, velhas, com motociclistas habilitados ou não a cidade gira em duas rodas sem jamais ter sido planejada para isso.
Explode uma guerra nas ruas. Motoristas estressados versus motociclistas apressados. Até porque recebem por viagem em muitos casos e o dinheiro não pode faltar para pagar as inúmeras prestações dos motos compradas.
Novamente a esquerda perde o bonde da história e não consegue entender a nova leva desses trabalhadores sobre duas rodas. Os motoboys atacados pela prefeitura que prefere fiscalizar os motoqueiros e não as empresas que os contratam se organizam criam um sindicato e em duas oportunidades realizam atos que param a cidade. Mais caos e nenhuma proposta efetiva do poder público a não ser a repressão da classe.
E assim a carruagem vai andando cada vez mais devagar. A mídia de braços dados com o poder econômico não questiona o problema da reforma urbana radical e manipula a opinião pública para aceitar pequenas reformas e soluções paliativas que não atingem nem de longe o centro da questão. Os governos estadual e municipal se escondem por trás dessa cortina anunciando seus esforços para articular a cidade dentro de uma lógica mercadológica que continua visando o lucro de empreiteiras, construtoras, imobiliárias e empresários do transporte. E a esquerda partidária chafurda no perigoso jogo ultra-sindical e institucional se esquecendo que é preciso se aproximar novamente da população, entender seus problemas reais e construir junto propostas e soluções para forçar as políticas públicas.
Caso contrário a Globo continuará a faze-lo.
d.B.Cooper
12.3.08
Estava fazendo meu exercício de masoquismo semanal: fui dar uma olhada na Veja da Semana. Isso me fez refletir da seguinte forma:
- Há algo que eu odeio mais que a Veja; são os editoriais da Veja!
- Há algo que eu odeio mais que os editoriais da Veja; a "Vejinha São Paulo e/ou Rio";
- Há algo que eu odeio mais que a "Vejinha"; as cartas dos leitores da Veja e seus comentários brilhantes sobre tudo que não entendem;
- Há algo que eu odeio mais que as cartas à Veja; O Diogo Mainardi!!!
ps.: Ainda arranjarei estomago para compartilhar convosco minhas alegrias ao ler a matéria de capa sobre a renúnica de Fidel: "Já vai tarde"…
Abraços, companheirada!!!
Patrícia.
7.3.08
Ontém conversando com um amigo, tive os olhos abertos para mais uma reflexão:
Durante décadas e décadas, dizia-se ser impossível investir mais em infraestrutura, em políticas sociais etc., pois tínhamos de pagar a horrível dívida externa. Agora, um novo cenário se desenha - a dívida está saldada, o Brasil de devedor, passa a ser credor e….??? Onde será gasto esse dinheiro???
Amarguramos, juntos a outros países latinoamericanos e de outras partes do mundo, anos e anos de recessão. Intermináveis crises de efeitos letais para o povo…e o Brasil com sua insistência e sua HONESTIDADE típica do bom-mocismo empenhou sua palavra (e sua alma): o pagamento da dívida será sempre garantida.
Nunca sobrou dinheiro pra nada. Até que o país entrou numa recente ONDA de crescimento. Com os ganhos de nossa economia, atingiu-se a meta estabelecida por nossos tubar…* digo, credores: o tal "superávit primário" - mais uma vez, o apalavrado fora cumprido…coisas de bom-moço.
A questão que fica de tudo isso é a seguinte: e agora Luiz? Poderemos contar com essa economia,com esse crédito todo para desengessar nossa estagnação econômica, a estagnação política e, sobretudo, a social? A reforma-agrária, finalmente sairá? Haverá mais investimentos na cultura e na educação?
Esse é o debate que nós, o reais donos do dinheiro, devemos fazer.
Quero ver quem terá coragem. Estou pra ver o presidente que realmente transformará este país (uma das maiores economias do mundo) num verdadeiro lar para seu povo.
* seria uma ofensa para o belo animal, não é?
Por P. Suçuarana.