Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

13.3.08

cont.

   Uma maravilha imobiliária e a cidade para poucos.

   Que a cidade é mesmo projetada para que poucos tenham acesso a ela não há dúvidas. Transporte coletivo deficiente e extremamente caro e revitalização do centro expandido de São Paulo são como um câncer desenfreado na vida do morador desse planalto.
   A capital do estado nunca esteve como agora. Um verdadeiro canteiro de obras para prédios de apartamentos de classe média alta com reportagem paga por construtoras e imobiliárias na “Veja São Paulo” onde a revista inteira foi feita sobre as novas construções da cidade e seus moradores sofisticados, tendo entre os personagens o próprio prefeito Gilberto Kassab.
   Do outro lado dos trilhos a maior parte da população segue soterrada nas periferias cada vez mais afastadas do centro com cada vez menos infra-estrutura ou planejamento.
   Com a acentuada queda do poder aquisitivo da população a partir da segunda metade da década de 90 ocasionada principalmente pelo fechamento de grandes industrias na capital e a desvalorização do Real, o centro da cidade foi transformado. Os moradores de ruas que não conseguiam mais espaço nem nas favelas afastadas começaram a se amontoar em praças públicas disputando espaço com vendedores ambulantes que perderam seus empregos formais na industria.
Sem uma política habitacional séria da administração pública com propostas de re-ocupação dos prédios abandonados do centro e não apenas a construção de conjuntos habitacionais de gesso em locais afastados, os movimentos sociais como o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC) organizaram a população de rua em ocupações urbanas para chamarem a atenção da mídia para a questão. Um grande número de imóveis desocupados e o déficit habitacional da cidade menor que o número de vagas para moradia oferecido nesses imóveis.
   Mesmo com a pressão dos movimentos sociais a força da repressão do Estado contra esse tipo de ação conseguiu na maioria das vezes a reintegração de posse dos prédios abandonados em favor dos proprietários, mesmo que em sua grande maioria os imóveis estejam com enormes dívidas de impostos atrasados.
   Portanto com essa nova “revitalização” da região central, que nada mais é do que um novo afastamento da miséria, a prefeitura cria um círculo vicioso insuportável: a super lotação dos ônibus e lotações que deixam os bairros mais afastados em direção ao centro.
   Essa super lotação dos coletivos, a falta de linhas de trens/metrôs e o alto custo do transporte público ajudou na estratégia das montadoras e revendedoras de automóveis na criação de inúmeras promoções e facilidades para a classe média animada com a estabilidade econômica dos últimos anos na compra de carros novos.
   Junto a esse novo mercado de carros “populares” a elite paulistana encontrou também uma boa saída para furar o rodízio de carros, essas famílias agora chegam a possuir até quatro carros na garagem.
   Todos esses fatores juntos ajudaram na formação desse monstro chamado trânsito.
   O debate imposto pela mídia se limita a uma só questão. A população que antes podia simplesmente comprar carro e chegar em qualquer lugar da cidade hoje tem problemas de circulação e perde horas da sua vida produzindo poluentes no tráfego impossível da cidade. O que antes era um problema da população mais pobre que sempre ficou horas esperando por um ônibus que não nunca chegou agora atravessa a rua e imobiliza os motorizados. É o acesso à cidade dificultado para quem sempre o teve e isso gera uma crise dentro da própria política de exclusão social do Estado burguês.
Soluções capitalistas
   Mas a cidade não pode parar.
   Então o sistema capitalista se ajeita e encontra nos Motoboys uma maneira do seu dinheiro “rodar” a cidade com pouco custo. Explora-se, portanto o jovem desempregado. Contrata-se sem critérios, sem benefícios e com salários baixíssimos mas abre-se uma válvula de escape para quem não tinha mais como sobreviver. A cidade lota-se de motos. Novas, velhas, com motociclistas habilitados ou não a cidade gira em duas rodas sem jamais ter sido planejada para isso.
   Explode uma guerra nas ruas. Motoristas estressados versus motociclistas apressados. Até porque recebem por viagem em muitos casos e o dinheiro não pode faltar para pagar as inúmeras prestações dos motos compradas.
   Novamente a esquerda perde o bonde da história e não consegue entender a nova leva desses trabalhadores sobre duas rodas. Os motoboys atacados pela prefeitura que prefere fiscalizar os motoqueiros e não as empresas que os contratam se organizam criam um sindicato e em duas oportunidades realizam atos que param a cidade. Mais caos e nenhuma proposta efetiva do poder público a não ser a repressão da classe.
    E assim a carruagem vai andando cada vez mais devagar. A mídia de braços dados com o poder econômico não questiona o problema da reforma urbana radical e manipula a opinião pública para aceitar pequenas reformas e soluções paliativas que não atingem nem de longe o centro da questão. Os governos estadual e municipal se escondem por trás dessa cortina anunciando seus esforços para articular a cidade dentro de uma lógica mercadológica que continua visando o lucro de empreiteiras, construtoras, imobiliárias e empresários do transporte. E a esquerda partidária chafurda no perigoso jogo ultra-sindical e institucional se esquecendo que é preciso se aproximar novamente da população, entender seus problemas reais e construir junto propostas e soluções para forçar as políticas públicas.
   Caso contrário a Globo continuará a faze-lo.

d.B.Cooper

criado por sheppa    2:17 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por R. Poke Ito — 13.3.08 @ 18:50

    Enquanto a cidade de São Paulo se gabar do título de Cidade Global, vai continuar a centralizar o fluxo de informações e sofrer as consequências. O pior é que já sabemos quem vem sofrendo mais e quem vai continuar sofrendo mais.

    parabéns pelo texto, meu parceiro!

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