Sheppa de Ingratu

Coletivo Maria Baderna

7.7.09

O Moleque Travesso, Resistente e Vencedor

 

O time do C.A. Juventus é famoso por ser o “segundo” time de muitos paulistanos. Uma verdadeira afronta aos que defendem só e unicamente as cores grená e branco do tradicional clube mooquense. Sim, eles existem e são verdadeiramente apaixonados a ponto de não terem um segundo time ocupando espaço no coração. Mas, como não poderia deixar de ser, um torcedor juventino sofre muito mais do que torcedores dos grandes clubes, ainda mais nos últimos  tempos… nas últimas duas temporadas, e que ficarão com gosto amargo na história do Moleque Travesso.

 Em vários aspectos, a história do Clube Atlético Juventus faz parte da história do bairro da Mooca, que por sua vez se mistura com a história e com o processo de desenvolvimento da cidade de São Paulo. O clube fundado em 1924 pelos funcionários do Cotonifíco Rodolfo Crespi, carregando mais tarde o nome da Juventus de Turim e as cores do Torino.

 Os operários imigrantes italianos, a linha férrea, as fábricas… esses foram os ingredientes para que na década de 20 fosse fundado o clube. Nos mesmos anos 20 do processo da moderna urbanização industrial de São Paulo; do Período Entre-guerras; pouco depois da Greve Geral de 1917 (que não por acaso iniciou-se no Cotonifício Rodolfo Crespi) que se estendeu violentamente pelo país; e do avanço do pensamento e ideais socialistas e libertários entre os operários no Brasil e no mundo frente ao fascismo, em especial na Itália com Antonio Gramsci, que os imigrantes trouxeram consigo na bagagem. 

Anos 30

Anos 30

A partir de então, o Juventus passou a disputar campeonatos municipais, regionais e nacionais. Em 1929 foi campeão da Segunda Divisão do Campeonato Paulista e foi em 1930, no ano de estréia na divisão de elite do futebol paulista que o Juventus, então apelidado de “Garoto”, vence o forte time do Corinthians em pleno Parque São Jorge por 2 a 1 e ganhou do jornalista Tomas Mazzoni a alcunha que o identifica até hoje: Moleque Travesso! Aquele time modesto que não poupa esforços ao enfrentar os grandes, passou por várias dificuldades e renovações, tendo momentos gloriosos como o da conquista da Série B do Campeonato Brasileiro, já em 1983. Em 2005 foi campeão paulista da Série A2 e voltou à elite estadual. Em 2007 vence a Copa FPF em uma final emocionante e garante vaga na Copa do Brasil. Parecia que era uma boa fase do time.

Campeão da Copa FPF, 2007

Campeão da Copa FPF, 2007

 Mas em 2008, o C.A. Juventus cai para a Série A2 do Campeonato Paulista. Sem muito incentivo da direção do clube a queda do time foi quase inevitável. Armando Raucci é o presidente do clube e naquela temporada já recebia constantes críticas dos torcedores: resultado de uma gestão questionável. Na Copa do Brasil daquele ano conseguiu uma façanha: goleou o Coruripe-AL por 5 a 1 na Javari, depois de perder por 4 a 1 em Alagoas, mas na fase seguinte não conseguiu manter uma boa atuação.

Em 2009, o time recebeu reforços e incentivo muito tardiamente e mais uma vez passou pelo rebaixamento, caindo para a terceira divisão do futebol paulista. Durante todo o campeonato a torcida apaixonada já sentia que o time não rendia o quanto devia render para a camisa grená que ostentava, e as críticas eram diretas: o presidente do clube. Raucci  preferiu dar atenção ao clube social, e isso lhe rendeu a pressão dos torcedores. O respeito de Raucci ao clube e aos torcedores chegou a ponto de ele contratar capangas truculentos para intimidar os torcedores juventinos que protestavam contra sua gestão. E não parou por aí: ainda tentou alterar o estatuto do clube para que pudesse ser reeleito como presidente.

 A crise já estava deflagrada. A dificuldade em administrar um clube tradicional sem grande marketing, sem grandes títulos, sem toda uma estrutura moderna e que coloque o corpo humano como máquina em grandes e tecnológicos centros de treinamento alcançou o Moleque Travesso e o derrubou. Derrubou por que o futebol moderno prostituiu jogadores e encerrou histórias de clubes, dando passagem para os times biônicos e os clube-empresa (times como Grêmio Barueri, Pão de Açúcar e Red Bull). Tudo para transformar o futebol em negócio altamente lucrativo, sem se importar com torcida, sem identidade, apenas revelando jogadores e para depois vendê-los e quando o retorno do investimento não for o esperado simplesmente fecham as portas. Uma tendência que vem crescendo, encabeçada por empresários e apoiada pela mídia e pelas federações de futebol que não criam incentivos aos clubes antigos e abrem as portas para empresários que não pretendem encarar o futebol como esporte.

Outro clube cuja camisa é histórica e faz parte de São Paulo é o Nacional A.C., tradiconal time da Barra Funda e rival histórico do Juventus, fundado em 1919 por funcionários da São Paulo Railway, mas que foi rebaixado e ano que vem jogará e agonizará na quarta divisão do futebol paulista. Neste caso também em grande parte graças ao futebol moderno.

 

O Templo da Rua Javari

O Templo da Rua Javari

Mesmo sem grandes títulos o time é muito querido pelos moradores da Mooca. E a relação do time com o bairro é única, tanto que é praticamente impossível pensar em um sem lembrar do outro para qualquer cidadão paulistano. A torcida então, é fanática. Pequena, mas barulhenta durante todos os 90 minutos de bola rolando. Para quem não conhece pode parecer até piada, da mesma forma com que um juventino se apresenta como juventino e só como juventino pois muita gente acha um absurdo torcer por um time sem títulos expressivos, sem um elenco milionário, sem um grande alcance na mídia. Esses torcedores, assim como o próprio Juventus, são a resistência. A resistência por um time com raízes, com identidade, e com peso da camisa mesmo não sendo campeão de vários campeonatos pois isso não importa: ser resistente já é ser vencedor, vai para além de títulos conquistados ou fenômenos contratados, é uma coisa íntima que poucos são capazes de sentir.

 E como me referi no começo do texto, a história do Juventus, da Mooca e da cidade de São Paulo estão entrelaçadas. Mas a Mooca tem sua história preservada a muito custo. Tem sua origem fabril e operária guardada depois de muita briga para que as construções não fossem ao chão para dar lugar a modernos estabelecimentos. Isso é também a resistência, e é a mesma do parágrafo anterior. E não se trata de conservadorismo ou tradicionalismo. Trata-se da relação conflituosa entre memória histórica e modernidade, que foi estudada por Richard Hoggart e que leva em consideração a trama das mudanças políticas e econômicas e como isso influencia a vida cotidiana na cidade contemporânea.

 Com isso, resta aos torcedores juventinos lutar para que o time não seja prostituído.

 Dia 11 de Julho inicia a Copa Paulista de Futebol. O Juventus estréia jogando na Rua Javari às 15h00, contra o moderno, biônico e clube-empresa Pão de Açúcar E.C. (sim, o mesmo do Abílio Diniz). Jogo em que a torcida estará fervorosa entoando seus cantos.

 O que o futuro próximo guarda para o Juventus ainda é incerto. Mas sua torcida fará o seu papel como sempre fez. E vamos lá, Grená!

 Por R. Poke Ito

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criado por sheppa    17:21 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por F. Traficani — 8.7.09 @ 14:56

    Meus Parabéns….belissimo texto

    Meu coração grená acelera quando leio algo sobre a hitória do time….sempre que remete a história das fabricas, do cotonifio, das greves etc…

    Realmente sofremos com essas desastrosas administrações no Clube, e claro isso se soma a um conjunto de transformações no futebol que deterioram os times ditos “menores”… (Menores no rabo dessa suja CBF - FPF - midia e etc)

    Resistir sempre!

    FORZA JUVE!!

  2. Comentário por Max Aveiro — 8.7.09 @ 16:49

    Me emocionei com o texto.
    Espetacular.
    Parabens.

    e realmente…
    Nós somos a resistencia!

  3. Comentário por Fernando Toro — 8.9.09 @ 13:54

    Palavras dignas da resistencia

    salu de toro!

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